125 anos de solidão a Dom Camilo ou 190 de paixão perdida

Por Valadimir Romano

Este corrente ano de 2015, tem sido fértil pelas piores razões à Língua portuguesa com o desvanecimento físico de elementos e personagens ricos que tanto ofereceram à literatura, poesia e à força intelectual que este mundo contem.

No entanto, assim como quantas figura foram indo pela navegação cósmica, outros, estando faz tempo fora, desmarcados pelo recolhimento das suas sombras, ficaram esquecidos de tão bons e úteis perante a herança deixada.

Falamos que, este mês de junho, data da morte do escritor e poeta Camilo Castelo Branco, preciosidade em qualquer parte do planeta, mas muito mal tratado na sua terra de origem onde tem vivido totalmente apagado da memória pedagógica à qual, nós, em tempos de ditadura, tínhamos a obrigação de estudar, ler, saber e, bem conhecer. Pois, no passado dia primeiro de junho fez o ilustre cavalheiro das Letras a idade de 125 anos sobre o sua partida enquanto em março último, a 16, fez 190 anos do seu aniversário. Custa dizer; mas, a ditadura fascista não empatava bilhões comprando submarinos, ao contrário da democracia que foi este mês aplicando mais 77 milhões de euros na compra de mais 2 vasos de guerra, mas nem se cansou em criar ministério dedicado em defender e divulgar a Cultura portuguesa. Os governantes do presente nunca acharam muito necessário a existência cultural, pela simples razão da bestialidade ocupar lugar avantajado quando economicamente falando, não ser coisa boa, mais prático fica enterrar a viva memória de um dos maiores escritores portugueses.

Contudo, ficando em análise perante o tempo que a democracia tomou conta da sociedade, Portugal, foi esquecendo com quantos governos, ministros dedicados à Educação, a seu modo particular, trabalhando foram pelo sentido negativo, tudo mudando, tudo alterando, tudo destruindo. Hoje, a maioria dos estudantes a nível universitário, não sabem, não conhecem, não leem Camilo Castelo Branco; não sendo este, infelizmente, caso único sobre lembranças a ter dos criadores não somente literários, mas entre outros tantos: abandono, desinteresse, ignorância em brutal manifesto, prenda envenenada da classe política, mas admitida de forma absurda pelo corpo de professores que já deviam ter reagido a este ultraje nacional contra o excêntrico branqueamento cultural.

Camilo Castelo Branco, foi o primeiro intelectual de língua portuguesa que aceitou o desafio sério de viver exclusivamente da sua produção literária. Ainda frequentou faculdade em curso de Medicina que nem nunca começou, seminários, Teologia, entre dezenas experimentadas soluções em luta sobrevivente; mas, nada! O dom literário, espírito criador, alma aventureira, ao ponto de amar sem temer tanto como a força personificada na genialidade do seu talento. A Camilo Castelo Branco chegou todo o desassossego deste mundo, aproveitando unicamente o prazer intrínseco da sua total e completa dedicação criativa dos seus livros. A lista é longa, rica, original, doce e amarga, como a realidade da própria vida.

Viveu bem a sua missão, com intensidade, brindado por mulheres a quem dedicou amor verdadeiro, porém, perdendo filhos, morrendo estes prematuramente; perseguido foi e arruaçado pelos invejosos do seu sucesso, sentido independentista, maneira libertadora, reformista, corajoso, frontal, apaixonado, sincero sobre seus atos como poucos.

Com isso, a carga experimentada existencial em Camilo Castelo Branco; oferece tamanha visão de como a vida e a sociedade em qualquer hora ou altura sabe ser ingrata, traiçoeira quando não, cruel. Deste modo, faltando a sua grande ferramenta como elementar complemento cumprindo missão de escritor: assim, sem visão, se tenha suicidado quando viu estar afinal, encurralado pela vida. Daqui, um dos seus últimos poemas, tão realista como ele para homenagear justamente a ingratidão daqueles que nunca deviam ter faltado na hora certa, como agora e nestes dias, aturar um governo de pavões desalmados que tudo têm feito para arruinar não só a vida das pessoas, mas particularmente acabar a existência dos superiores valores da Cultura.

Alguns amigos no entanto, não esqueceram o compromisso e, até ao final do ano vão manifestar em localidades diferentes do país, atividades na evidência pronta para divulgar toda a obra do autor alfacinha, que alguns pensam ser tripeiro. Viva pois, Camilo Castelo Branco, pela solidão e paixão perdida…!

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Já no final da sua vida, Camilo Castelo Branco, ao ver a ingratidão dos amigos, escreveu um dos seus últimos poemas dedicado justamente a
esses tais “esquecidos” amigos.

AMIGOS

Amigos, cento e dez, ou talvez mais
eu já contei. Vaidades que sentia:
supus que sobre a terra não havia
mais ditoso mortal entre os mortais!

Amigos, cento e dez, tão serviçais
tão zelosos das leis da cortesia,

que já farto de os ver me escapulia
as suas curvaturas vertebrais.

Um dia adoeci profundamente:
ceguei. Dos cento e dez houve um somente
que não desfez os laços quase rotos.

__ Que vamos nós (diziam) lá fazer?
Se ele está cego, não nos pode ver!…
__ Que cento e nove impávidos marotos.

Camilo Castelo Branco
São Miguel de Seide – Famalicão, 1890

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