A fila

Há algumas semanas vivi uma situação muito interessante e resolvi compartilhar com os leitores e as leitoras da nossa coluna: precisando providenciar a Carteira de Identidade de minha filha, busquei me informar para confirmar os documentos necessários e as formas de acesso a esse serviço.

Confirmei que em Itabira é possível fazer esse documento no Posto de Atendimento da Polícia Civil, localizado à Avenida Carlos Drummond de Andrade nº 50 – Centro, onde o atendimento ao público é de segunda a quinta de 7:30 às 12 hs, sendo distribuídas 20 (vinte) senhas por dia no início do horário de atendimento. Às sextas-feiras o atendimento é feito em outros municípios da região, pois se trata de uma Delegacia Regional, e em uma sexta-feira por mês as vagas são reservadas ao Conselho Tutelar de Itabira para atender crianças e adolescentes. Por ser uma Delegacia Regional, no mesmo local também são atendidas pessoas de outras cidades da região.

Pesquisamos um pouco mais e confirmamos que o mesmo serviço pode ser agendado pela internet nas Unidades de Atendimento Integrado (UAI), que são locais onde vários órgãos públicos, principalmente estaduais, atendem num mesmo endereço “com objetivo de ampliar e facilitar o atendimento aos cidadãos na prestação de serviços específicos, para redução e eliminação de filas e, consequentemente, diminuição do tempo de espera do cidadão” – quem quiser pode conferir nos sítios eletrônicos www.mg.gov.br, www.detran.mg.gov.br e em outras páginas de órgãos e entidades que atendem nas UAIs. Constatamos que atualmente existem em Minas Gerais cerca de 30(trinta) UAIs, sendo 5(cinco) delas em Belo Horizonte, e que havia vagas para atendimento com menos de uma semana na unidade da Praça Sete e na do Barro Preto. Ainda assim, resolvemos tentar fazer o documento em Itabira mesmo, com a ideia de “enfrentar a fila” uma única vez e, se não desse certo, marcar em Belo Horizonte, pela internet. Aliás, também chegamos a agendar o atendimento no Conselho Tutelar de Itabira, para o mês de setembro, mas, depois que decidimos “enfrentar a fila” e conseguimos ser atendidos na Delegacia, cancelamos esse agendamento.

Pois bem: fomos “enfrentar a fila” numa quarta-feira, dia 26 de julho, mas passei pelo local no dia anterior, no meu horário de almoço, e fui informado que a última pessoa atendida no dia 25 dissera que havia chegado na fila às 4:50 hs da manhã… Assim, para tentar garantir um lugar na fila chegamos às 4:25 hs. E conseguimos: ao chegar fomos informados que estávamos no 18º lugar. Às 4:30 hs chegaram mais duas pessoas e completaram o grupo dos “vinte felizardos” daquele dia – às 4:40 hs chegou uma senhora que rapidamente foi embora e depois outros passaram pelo mesmo constrangimento.

Uma senhora que chegou pouco depois ficou lamentando por não ter conseguido vaga na fila e aí um rapaz, que até então era o 17º, disse que estava “guardando a vaga” para um colega que ficou de chegar até 5:45 hs e pagaria a ele R$ 50,00 (cinquenta reais), mas como tinha que ir para o serviço se o colega demorasse ele toparia “ceder a vaga” para quem pagasse “pelo menos uns R$ 40,00 (quarenta reais)”. A maioria das pessoas que estavam na fila se sentiu incomodada com a situação, mas a senhora que estava se lamentando por não ter chegado mais cedo disse que pagaria pela vaga se o outro moço não chegasse – em torno de 5:50 hs ele disse que iria mesmo embora e ela pagou para ele R$ 40,00.

Várias pessoas manifestaram sua indignação com a “compra e venda de vaga na fila”, mas pouco depois outro jovem, que seria o 8º, saiu da fila e “cedeu sua vaga” pelo mesmo valor a um senhor que chegou em torno de 6:00 hs e outro rapaz, que estava no 4º lugar da fila, foi abordado por uma moça que chegou por volta de 6:10 hs e já havia “comprado a vaga” antes, pois se dirigiu diretamente ao rapaz e já foi entregando R$ 50,00 (cinquenta reais). Algumas pessoas protestaram e o senhor que estava no 8º lugar chegou a ir para o final da fila, mas depois os ânimos se acalmaram e ele voltou à “sua vaga”.

As duas funcionárias do local chegaram no horário (7:30 hs) e pouco depois uma delas abriu a porta e pediu para cada um se colocar de pé na ordem de chegada para entregar as senhas… Aí constatou-se que “alguém sumiu da fila” – no caso, o ocupante do 12º lugar – e os que estavam do 13º em diante “adiantaram uma posição”. Assim, recebi a senha número 17 e uma senhora que havia chegado quase às 7:00 hs e resolvera “ficar na repescagem” acabou ocupando o 20º lugar da fila. Logo em seguida a funcionária pediu para formar uma fila separada com quem tinham direito a prioridade no atendimento, ficando esta fila com apenas três pessoas e outra fila com as demais dezessete pessoas, sendo as senhas prioritárias atendidas de forma alternada com as três primeiras senhas da fila maior. Ao verificar os documentos das pessoas da fila, foi identificada uma senhora que veio de São Gonçalo do Rio Abaixo e foi informado a ela que seu atendimento não seria em Itabira – pelo que entendi seria em Barão de Cocais.

Uma das primeiras pessoas a serem atendidas questionou sobre a venda de vagas na fila e a funcionária disse que “isso é proibido” e que “se alguém for pego comprando ou vendendo lugar na fila as duas pessoas são identificadas, ambas perdem o lugar na fila e o dinheiro é apreendido”. Ela disse ainda que “se todo mundo chegasse em torno de 7:30 hs não haveria venda de vagas na fila”.

Durante o tempo em que fiquei na fila conversei com as outras pessoas que ali estavam e a principal ideia era a de que é possível implantar a marcação ou o agendamento com antecedência naquele serviço, conforme comentou a respeito uma das pessoas que estavam na fila naquele dia: “O agendamento pode ser feito até anotando a caneta num caderno brochurão ou num ‘papel de pão’ e nem precisa ser por telefone ou pela internet… Mesmo se tivesse que agendar pessoalmente já eliminaríamos facilmente essa fila de madrugada e a venda de vagas na fila…”.

E aí, quando será que isso vai mudar?!?

* Nivaldo Ferreira dos Santos é Mestre em Administração Pública, Professor, Líder Comunitário e Servidor Público

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