A difícil vida a dois

A questão da semana é o caso da internauta que tem um marido autoritário e controlador. Não conseguem trocar nada numa conversa, porque só ele fala e ela se vê obrigada a concordar com tudo para evitar um estresse maior. O problema é que está infeliz.

Por que as pessoas não percebem que os modelos tradicionais de relacionamento são insatisfatórios e causam sofrimento? Por que se repetem tanto os mesmos padrões de comportamento?

Pouca gente tem coragem de tentar novos caminhos. O desconhecido assusta, dá medo, mas apesar das frustrações quase todos recorrem ao que já é conhecido. No que diz respeito à vida a dois isso quase sempre acontece.

Depois de algum tempo, na maioria das vezes, as relações estáveis — e aí tanto faz ser namorado ou casado, morar junto ou não —se tornam tediosas. São tantas regras a seguir, tantas concessões a fazer, que a vida vai ficando sem graça.

Quando observamos o silêncio absoluto de um casal na mesa de um restaurante, por exemplo, onde se percebe uma falta total de interesse um pelo outro, fica claro que já não têm mais nada para conversar. E nem percebem, de tão acostumados que estão. Agem como se isso fosse natural. Quanto ao sexo nem se fala.

A excessiva intimidade anula a emoção que havia antes, tornando-o mecânico. Mas apesar de tudo os dois continuam juntos, se agarrando um ao outro e à relação, como náufragos aguardando um milagre acontecer.

Antigamente, até a década de 60, era muito mais fácil a vida a dois. As expectativas sendo bem mais modestas, se sentir seguro e protegido dentro do lar era o que importava, o prazer sexual não era levado em conta. Além disso, as opções de lazer eram limitadas, não havia nem televisão, nem tolerância social para ousadias existenciais.

Hoje, ao contrário, os apelos são muitos. Existem muitas coisas para se descobrir fora do espaço privado da família. Para cada área de interesse são oferecidas inúmeras atividades, e o mais perturbador: é possível conhecer várias pessoas diferentes.

Nesta época em que vivemos, ninguém mais está disposto a fazer sacrifícios só para ter alguém ao lado. Portanto, é possível que a relação amorosa fixa e estável com uma única pessoa esteja com seus dias contados.

Para haver chance de se viver a dois sem tantas limitações, homens e mulheres precisam efetuar grandes mudanças na maneira de ser e de pensar, para continuar eles mesmos, preservando sua própria maneira de ser e de pensar.

Penso que para uma relação a dois seja satisfatória, alguns fatores são primordiais:

—Total respeito ao outro e ao seu jeito de ser, suas ideias e suas escolhas.

—Nenhuma possessividade ou manifestação de ciúme que possa limitar a vida do parceiro.

—Poder ter amigos e programas em separado.

—Nenhum controle da vida sexual do parceiro, mesmo porque é um assunto que só diz respeito à própria pessoa.

Poucos concordam com essas ideias, na medida em que é comum se alimentar a fantasia de que só controlando o outro há a garantia de não ser abandonado.

Chegamos, então, a um ponto crucial: para haver uma relação amorosa gostosa entre duas pessoas, elas têm que estar juntas somente pelo prazer da companhia um do outro, e não reproduzindo a mesma dependência emocional que tinham com a mãe quando eram crianças.

Como conseguir isso? O primeiro passo é desenvolver a capacidade de viver bem sozinho. É descobrir o prazer da própria companhia.

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