A nação laranja também tem Lusofonia

Amsterdan

 Imagem do rio Prinsengracht, foto de John Lomb, colectânea “Images”

Por Veladimir Romano

Depois de ausência forçada desde 2001, novamente, caminhamos pelas arcaicas e históricas calçadas da cosmopolita Amisterdam/ão… relembrando épocas; cidade prestigiada com seus elaborados museus de arte, dignificando memórias dos grandes autores da terra, alimentando pedagogia aos mais novos, servindo fatias da cultura ao concorrido turismo.

A posição estratégica do país, a sua liberdade, espírito solidário aos refugiados políticos nos difíceis períodos das ditaduras de Francisco Franco (Espanha) e de Oliveira Salazar (Portugal), trouxe muitos emigrantes da península Ibérica, intelectuais, políticos e cientistas, fixando residência permanente.

Não é pelo acaso que Francisco da Silva (professor, investigador e reitor universitário de Utreque), um dos maiores neurocirurgiões mundiais, ficou residente mais de 40 anos: primeiro como exilado político adotado à nacionalidade holandesa, figura exemplar do Portugal tão perto, mas de eterna desilusão: longe, esquecido, desprezado pela pátria original.

Outras figuras respeitadas não fogem desta regra, profissionais de Medicina (pediatria, biologia), nomes famosos na sociedade holandesa, insuficientes a Portugal, incluindo o escritor residente desde 1959, Rentes de Carvalho, intelectual lido com apreço em larga escala pela população holandesa e não só. Um em cada 4 holandeses, são leitores assíduos do autor lusitano. A Holanda tem 17 milhões de habitantes, dos quais 2 milhões, estrangeiros. Colaborador de longa data de jornais com prestígio como o Volkskrant (Jornal do Povo), romancista,  divulgador turístico,como ninguém tem escrito sobre as boas coisas da terra lusa, não esquecendo aqui outros (alguns) autarcas da província Sul de Holanda e de algumas prefeituras onde emigrantes de longa data, completamente integrados, mostram suas mais valias e qualidade profissional; contudo, impossível de levar à terra natal.

Nomes não faltam nesta aventura de sons lusófonos com colaboradores empenhados, sustentando emissões semanais através das rádios (Amílcar de Castro, Maria dos Santos, João Oliveira, Carlos Lopes, Jean-Cluade Gomes; Vitorino Chantre, professor; Carlos Matos: pianista e músico), política, ensino e até escultura. O prêmio dos escultores holandeses, foi ganho por caboverdiano, autor do monumento em homenagem aos escravos, hoje colocado no local a visitar junto ao porto marítimo de Roterdão.   

Viajando pela cidade universitária de Utreque, local das prestigiadas (antigas) escolas de pintores flamengos, tem na câmara municipal/prefeitura: juristas (Damiana Brito e Justina Rocha) descendentes de caboverdianos; vereadoras pelo partido Verdes de Esquerda (Groen Links), como em Ablaasserdam, presidentes de junta, João Pedro, deputado pelo CDA (Centro Democrata Cristão) em Roterdão/am, Agostinho Santos, igualmente de origem caboverdiana, ganhando eleições para o Partido Trabalhista (Partij van Arbeid), sendo vereador também da cidade de Erasmus; além da participação radiofônica, tv, escrevendo, editando livros de poesia, músico, interventor social, entre outras atividades em suporte da sociedade emigrante, pela qual nunca esgota suas ações.     
 
Figuras femininas são igualmente destacadas no contexto holandês. Recentemente, duas personalidades da comunidade caboverdiana, reconhecidas pela Casa Real de Orange (condecorações das mais altas da Rainha: “Orde van Oranje Nassau”), condecorando a professora Tomázia Teixeira (também artista teatral, com participação no cinema e documental), a enfermeira Maria Teresa Segredo, responsável pela Fundação “Amigos do Paul”, apoiando idosos e crianças desfavorecidas da sua pequena ilha de Santo Antão.A estes exemplos, mais gente válida, igualmente foram criando novos recursos na sociedade, como a professora Anita Faria, acompanhada das irmãs, promotoras da Cultura de Cabo Verde: Chia e Eloisa, ou o professor João Ortet (músico); porém, muitos mais merecendo ficar representados, simbolicamente, residentes da nossa eterna memória, merecem deferência, não sendo aqui colocados pelo desconhecimento correto dos apelidos, mas sabendo nós da sua existência, enriquecendo a sociedade de emigrantes da Holanda.
Precisamente Roterdam, onde a comunidade de origem brasileira criou instalações para o ensino e a divulgação da Língua portuguesa. Na confortável e simpática cidade, nunca o Instituto Camões, a 4 mil quilómetros (34 horas de viagem por rodovia) de Lisboa, conseguiu algum dia chegar… para quem mandou caravelas pelos oceanos…
No presente, financiado pela União Europeia para tantos projetos, Portugal não consegue valer outros contendo material pedagógico até paragens nórdicas onde holandeses manifestando vontade de aprendizagem da Língua portuguesa… normalmente, acabam aprendendo castelhano.No entanto, seguem governos holandeses pagando o ensino da Língua portuguesa aos jovens descendentes dos emigrantes, com professores brasileiros e caboverdianos, salvando a face das vergonhas de uma ausência inexplicável de Portugal, Angola e Guiné-Bissau (estes últimos nem representantes consulares conseguem ter), nunca acompanhando concidadãos no sentido válido pela divulgação dos seus valores culturais.
Recordando anos 70 (carinhosamente), quando doutor Manga, então responsável pelo consulado brasileiro de Roterdão (vivia o Brasil também a sua ingrata experiência da ditadura) na maior cidade portuária do mundo, abriu mão do seu estatuto diplomático, oferecendo apoio e sentido digno aos exilados políticos representantes das várias forças de luta pela libertação de Angola, Cabo Verde / Guiné-Bissau e Moçambique. Arriscando sua posição, nunca hesitou em abraçar causas humanas.Trabalhou na maior divulgação do café brasileiro nas paragens do norte europeu, enquanto apoiava emigrantes marítimos brasileiros fugindo dos navios com bandeira de conveniência, aprisionados no porto de Ambéres/Antuérpia, Bélgica.

Instantes recordando épocas refletidas hoje pela penúria na repetição de políticas vazias, sem contexto, nenhuma responsabilidade das autoridades quando a pergunta jamais termina: como se chegou a uma situação tão incompleta de recursos públicos?

Questão obrigatória: por onde anda a CPLP? O que faz esta gente? Quem são estes administradores do Estado e das instâncias, diplomatas do discurso fácil, da retórica em banho-maria, incapazes de compreender onde residem mais valias, a inteligência dos povos, o proveito de uma força conjunta de populações?
 
Visitamos o reino laranja doze anos depois: descobrimos mensagens no crescimento da comunidade falante de português, das emissoras, da produção discográfica, dos artistas residentes, da estafeta diária das famílias, associações, inclusão, festivais… infelizmente, poucos organismos oficiais apresentam tanta união e capacidade para furar fronteiras da própria mesquinhez, incapacidade, incompetência e desleixo no relacionamento constante.

Voltamos aos antigos chavões. É urgente juntar, manter humanismo e responsabilidade, cativando valores, albergar povos solidários lutando para manter ideais… pois, qualquer um de visita pelos Países Baixos, vai descobrindo riquezas em torno da Lusofonia; o problema é mesmo como aplicar positivamente o desdobramento contextual das mais valias.
Celebrar a Lusofonia, a ser um desígnio, só deixando cair formalismos minimalistas envenenados pela burocracia, tolhidos e massacrados de universos vagos demais, habitando limites onde esse compromisso cultural, humano e comercial, vai perdendo vitalidade, oportunidades e verdadeiras razões existenciais.
Ao invés, nas terras do reino laranjal, alguma Lusofonia oferece pedagogia positiva a quem deseje sair aprendendo com as comunidades brasileira, portuguesa, angolana, caboverdiana e mais uns trocos de outras paragens, vivendo e mantendo afinidades culturais, humanas, como linguísticas; sem pessoas, certamente, a CPLP e o trajeto  lusófono, não terá futuro.

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