Alemães e gregos: da desgraça à civilização

Por Veladimir Romano

Quando os primeiros soldados ao serviço do Império Romano chegaram ao território helénico, ficaram surpreendidos pelo que encontraram em termos de civilização, comparando a outros locais aonde já havia chegado esse domínio. Do atraso dessas paragens, ao desenvolvimento social e cultural da Grécia, Roma, compreendeu que ali, eles, nada tinham para ensinar, antes aprender.

De ensinamento após ensinamento, a restante Europa, Oriente Médio, o território norte africano, até extensões asiáticas, pela marca da Antiguidade cultural grega, muitos devem da sua evolução, introdução linguística, formas de pensamento, expressão artística, prática desportiva/esportiva, regras matemáticas, geografia, ciência médica, muita coisa.

Certo: enquanto gregos e romanos afirmavam acordo civilizacional, a Germânia, bárbara e atrasada, levava pânico, guerras, destruição, miséria, medo, doenças. Muitos dos genocídios deixavam corpos abandonados nos campos de batalha, provocando mais tarde a origem das famosas pestes, matando aldeias, dizimando a vida de cidades inteiras.


Transferindo aos dias contemporâneos, desde a conservadora Prússia pela fusão com a restante Germânia; não fora a forte sociedade capitalizada desenvolvida pelos judeus (yiedish) alemães; a economia da fome não seria novidade. Daqui, nunca teria sido difícil chegar aos acontecimentos conhecidos tanto do primeiro conflito mundial, quanto a chegada à segunda guerra, ambas destrutivas, sangrentas, trazendo muita ruína, desgraça financeira, espiritual e física.

Duas guerras mundiais provocadas pelos alemães, foram piores à Humanidade, do que todas as guerras juntas entre a Grécia e seus inimigos históricos, como a Turquia ou de tempos antigos contra a Macedónia, Egito ou a Pérsia. Ainda assim, depois da tempestade humana, alguma coisa de bom foi ficando pelo acumular de conhecimentos de culturas absorventes chegando aos nossos dias o fio condutor indiscutivelmente evolutivo de conhecimentos, valores e ciência, deixados pelos gregos.


Dos godos, hunos, visigodos, vândalos, germanos, ostrogodos; povos que fizeram da Germânia, um dos territórios mais tribais e atrasados de toda a Europa. A própria palavra “bárbaros” (ellin barbarós), do grego antigo, refere “aquele que não é grego”… logo portanto, na ideia da 
época: “o não civilizado!”.

Hoje, a própria língua alemã, para entrar na modernidade, teve de reciclar das expressões gregas, palavras para preencher o seu vocabulário… coisas que a todos nós, nos passa despercebido, de tão natural, como é “geografia”, “geometria”, astronomia”; ou nos “astros”, “planetas”, “hidro”, “hipo”, “pira”, “odonto”, “tácito”, “etno”, “pólis”, “metro”, “foto”, “fármaco”, “ginecologia”, “mono”… podia continuar quase infinitamente o enorme contributo da Grécia ao mundo, sem esquecer os princípios democráticos e republicanos, como uma das maiores heranças da sabedoria humana, aquela que muito obrigatoriamente nos separa dos outros animais ainda em estágios (evolutivos) primários.


Contudo, de repente, os países culpados da modernidade destrutiva por onde o capital supera a Humanidade e os valores humanos, compreenderam como podem causticar povos à custa da austeridade, praticando uma total, incompreensível, perversa, até sádica maneira em destruir economicamente, financeiramente, sociedades sem apelo nem direito.

Esta posição ridícula, absurda, obscura das entidades responsáveis pelo apoio financeiro aos países endividados, são a prova provada dos comportamentos mais reacionários que a História tem o dever de registrar/registar para que enganos no futuro sejam a lição de como efetivamente funcionam as forças do Capitalismo. Por outro lado, a forma como se deve agradecer a rica herança humanista que esta Grécia ofereceu graciosamente ao mundo, pelo visto, não conta. Nem tanto o seu sofrimento e a destruição social de milhões de famílias.

Deve ser compreendida a silenciosa guerra inserida em todo este processo tenebroso provocado pela crise, não esquecendo centenas de milhar das cidadãs e cidadãos gregos mortos na Segunda Grande Guerra. Não precisando ir muito longe; Creta, é sinônimo/sinónimo até hoje de genocídio nazi. A ocupação alemã (total de 22 mil soldados) da histórica ilha grega, na época com mais de 100 mil habitantes, provocou a morte de 70% da população local, entre mulheres, homens, crianças e grávidas.

Creta, é berço evolutivo mediterrânico, terra da civilização ménica sete mil anos antes de Cristo, o povo minoica, já fazia joalharia, vinho, cerâmica, tecidos, azeite, construção náutica… local com 130 mil anos de história, um primor da época neolítica. No reverso, em pleno século XX, mais acima em Distomo, a ocupação nazi, no primeiro dia, varreu pela força da bala: 244 pessoas, mostrando valores da civilização alemã.


Com a recente discussão da velha dívida alemã aos gregos pelas causas da Grande Guerra; economistas franceses deitaram mão séria na tarefa clarificando coisas em algumas semanas depois, apresentando contas de rigor sobre a tão discutida dívida dos alemães aos gregos: tudo ficou avalizado/avaliado numa soma de 575 bilhões de euros secundo cálculos atuais dos estragos humanos e materiais dessa ocupação nazi entre 1940-45, em território grego… acontecimento que o mundo não pode deixar de cor parda ao entrar no quarto cinzento-escuro, enquanto a transparência humana mantendo realidades do que realmente sejam valores de civilização e a desgraça selvagem à qual pugnam forças macabras do capitalismo impondo fome,  miséria, limitações ao próximo; 
querendo mais retirar a dignidade da história dos povos do que penalizar os verdadeiros culpados desta crise venenosa, quando o sério defunto anda 
atrapalhando o mundo, soltando cifrões… assim, ainda sobra da dívida grega 200 bilhões de euros que nunca pagarão a grosseria que tropas de Hitler andaram fazendo num dos territórios mais civilizados que o mundo conhece.

 

comentários