Assassinatos políticos: seria o caso do promotor argentino?

Sócrates, em sua defesa no tribunal ateniense, questionou a aceitação passiva dos costumes, crenças e tradições, afirmando que “a vida irrefletida não vale a pena ser vivida”. A filosofia moral (para ele) deveria ser um tipo de “mosca irritante”, mantendo todos (governantes e governados) sob permanente inquirição. Sócrates foi condenado por suas inquirições e teve que tomar o veneno mortífero (cicuta). Suicidaram-no! O promotor Alberto Nisman acusou formalmente a presidenta Kirchner de ter acobertado o Irã e os iranianos que teriam assassinado 85 judeus no atentado de 1994 (caso Amia), em Buenos Aires (não solucionado pela Justiça até hoje, o que estimula a “guerra de todos contra todos”, aventada por Hobbes). Na véspera de apresentar suas provas ao Congresso, apareceu morto em seu apartamento. Suicídio ou assassinato? Kirchner, em primeiro lugar, falou em suicídio. Depois afirmou (22/1) estar convencida de que não foi suicídio. Comentários contraditórios! Que revelam desespero diante do sério risco de maior desmoronamento do seu governo (que anda capengando há tempos). Seria um assassinato político? Nesse caso, de responsabilidade do governo ou da oposição? Ambos se acusam mutuamente, as investigações prosseguem. Há muitas contradições para se afirmar que houve suicídio. Se aconteceu, não há dúvida, suicidaram-no!

Segundo a consultoria Ipsos (citada por Ariel Palacios), 70% dos entrevistados não acreditam em suicídio, sim, em homicídio; 82% pensam que as acusações contra Cristina (encobrimento dos assassinos) são verdadeiras; 63,9% acham que o caso Nisman não será solucionado pela Justiça (tal como vários outros crimes políticos). Falta confiança na Justiça. Cruzando de lá para ca o Rio da Prata, no caso Celso Daniel (ex-prefeito petista da cidade de Santo André-SP) e do ex-prefeito petista de Campinas (Toninho) também teria havido assassinato político. Ambos relacionados com corrupção no partido governista? Resposta oficial do Estado nunca veio (mas ao que tudo indica sim). PC Farias (ex-tesoureiro de Collor) foi assassinado em queima de arquivo? Ninguém tem uma resposta definitiva. Por que todas essas inconsistências nas investigações na Argentina e no Brasil?

De 1979 a 2013, segundo reportagem (premiada) de Leonencio Nossa (Estadão 12/10/13), 1.133 pessoas no Brasil foram vítimas de assassinatos políticos (ou seja, por motivação política). Barbárie monstruosa (e silenciosa) escondida debaixo dos tapetes dos 30 anos de exitosa e, ao mesmo tempo, incompleta redemocratização (1985-2015). Que derruba o mito do brasileiro cordial em todas as suas relações sociais. Um assassinato a cada 11 dias (em todos os estados e em todos os níveis políticos). Por que aqui prospera a barbárie (o Brasil é o 12º país mais violento do planeta, com 29 assassinatos para cada 100 mil pessoas)? Desde logo, porque também somos uma espécie violenta (veja Somos una espécie violenta?coordenação de David Bueno, Barcelona), que se manifesta de forma aguda nas sociedades menos civilizadas/organizadas, como a latino-americana, a mais violenta do planeta, com 30 assassinatos para cada 100 mil pessoas. Na ausência ou com precários limites normativos ou sua ineficácia (anomia, descrita por Durkheim), aumenta-se a violência (o desvio da norma) que, no Brasil, em regra, fica impune (2/3 dos inquéritos não apuraram as autorias dos assassinatos políticos, conforme descoberta de L. Nossa), em virtude das dificuldades de se transpor “pressões políticas” para iniciar ou dar prosseguimento às investigações. Em muitos casos certamente justifica-se a federalização do crime (ou seja, o caso deveria ser transferido para o Ministério Público federal).

A impunidade (ostensiva) e a descoberta da verdade (sempre ocultada) são apanágios de governos altamente corruptos e violentos, como são o do Brasil e da Argentina (ambos mergulhados na devassidão e ignomínia, toleradas pela população). É preciso reconhecer que eles não são os únicos culpados, porque todos foram eleitos e reeleitos pelo voto majoritário do povo. A corrupção endêmica assim como a violência epidêmica (no nosso caso) não é fruto exclusivo dos governos perversos e indecentes de todos os tempos, serviçais de uma estrutura de poder carcomida e contaminada desde o colonialismo. De tudo os nefastos são capazes, para conquistar ou preservar o poder, mesmo assim, eles são eleitos reiteradamente (veja o caso de Paulo Maluf, em São Paulo). Isso significa que nos tocou viver numa sociedade seriamente comprometida pela anomia (ausência ou ineficácia das normas morais e jurídicas) e que, ademais, é regida por um sistema político que alcançou, em razão da putrefação, níveis hecatômbicos de ilegitimidade. Somos protagonistas ou coniventes de sociedades criticamente anêmicas, conformistas, que pouco lutam (por falta de consciência ou por falta de apetência) em favor de mudanças verdadeiras (que não têm nada a ver com as propagadas pelas lideranças messiânicas que perseguem há séculos toda América Latina).

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