Como as provas sumativas finais prejudicam as nossas crianças.

Por Ana Soares

Praia / Cabo Verde

Pouco mais de uma semana depois da conclusão das avaliações e da afixação das pautas, ainda me choca pensar nas mudanças que aconteceram no final deste ano, relativamente às provas sumativas finais.

A meu ver, o Ministério da Educação e Desporto tem feito um trabalho incrível, implementando uma nova abordagem à introdução da leitura e da escrita, em particular, e ao trabalho em sala de aula de uma forma geral.

Estive presente desde o início em formações e encontros para debater este assunto e sei bem quão controversa foi a implementação desta nova metodologia de trabalho. A minha formação e o meu trabalho sempre se desenvolveram neste sentido, usando metodologias muito semelhantes à proposta no início do ano letivo passado e, ainda assim, tive dificuldades em acreditar que realmente resultassem e passei por momentos de dúvida e insegurança. Também eu me debati com questões relativas à avaliação de uma nova abordagem. Afinal, se estamos a inovar na forma de ensinar e transmitir conhecimentos, não deveríamos também inovar na forma de avaliar os ditos conhecimentos? E sempre expus abertamente as minhas questões tanto ao colégio onde trabalho, como à própria Delegação Escolar.

Desde o início, mostraram-nos alguns modelos de provas, falaram por alto da forma como – em teoria – se construíam os elementos de avaliação, mas nunca impuseram que o professor seguisse este ou aquele método. Depois de dois anos inteiros a trabalhar com uma abordagem por competências – mas para um objetivo muito específico: as provas sumativas finais – qual não foi, por isso, o meu espanto quando em junho nos foi entregue o novo modelo de prova a implementar, concordante com a nova abordagem.

O que mais me chocou no meio de toda esta situação não foram apenas as alterações de última hora num assunto de tão elevada relevância para o processo educativo mas essencialmente a displicência com que, na própria Delegação, responderam às minhas questões com um tão simples “Pois, partilhamos a sua apreensão mas não se preocupe porque a prova sumativa final não vai contar para efeitos de avaliação. Serve apenas para vermos como os alunos reagem a uma situação nova.”

Será possível que, na própria Delegação, o impacto pedagógico que uma ação destas tem para todas as crianças envolvidas no processo não tenha sido sequer alvo de análise? Será possível que a própria entidade reguladora da educação, que iniciou a implementação de uma metodologia tão positiva e tão moderna, consiga ser tão cega às implicações pedagógicas dos seus atos? Como acham que as crianças reagirão quando sentirem que todo o seu esforço foi em vão? Como acham que os pais reagirão ao sentirem que estiveram um ano inteiro a investir para um objetivo que nem sequer existe? Como acham que reagem os professores ao sentirem que o trabalho desenvolvido ao longo de dois anos é agora posto em causa? 

Porque a realidade é que ao responder aos novos modelos de prova, os alunos têm resultados substancialmente mais baixos do que o normal, apenas porque a forma de apresentação dos exercícios é diferente. Crianças de 7 anos não têm a maturidade necessária para compreender que a diferença não é significativa e, por isso, os alunos bloqueiam. Não compreendem o que lhes é pedido e por isso não conseguem responder à altura, sentindo por isso que falharam. 

É porque não sabem resolver os exercícios? Não! É porque trabalharam sempre por cópia e sem autonomia para pensarem pelas suas próprias cabeças? Também não. É apenas porque a capacidade de interpretação ainda não está suficientemente desenvolvida para compreenderem o que lhes é pedido. É apenas porque, num momento já de si de grande ansiedade, os alunos são confrontados com um tipo de apresentação completamente diferente daquilo que já viram e por não compreenderem à primeira o que lêem, associam que é porque não sabem a resposta. E todos nós sabemos que a maior parte das crianças quando não sabe, inventa.

Para que servem então estas provas? Qual é a utilidade de fazermos testes, se estes não contam para avaliação ou, pior, se não são válidos? Porque as respostas dadas não foram reais, logo os resultados não podem ser cotados como válidos. Se estamos a inovar na forma de ensinar, porque é que não inovamos na forma de avaliar? As perguntas estão diferentes, mas a forma de avaliação continua a ser tradicional, antiquada e pouco sensível. Porque é que não implementamos novos modelos de avaliação, tal como implementámos novas abordagens ao ensino? Fará sentido, no século XXI, continuarmos a avaliar os alunos pelo trabalho de um determinado dia numa folha de papel? Em que outras situações, além das situações escolares, é que somos avaliados com base num teste escrito?

Não faz sentido estarmos a submeter os alunos a pressões externas como a das provas. Não faz sentido, numa altura em que a educação tem mudado tanto e em que as necessidades dos alunos de agora são diametralmente opostas às dos alunos de há 20 anos atrás, continuarmos a seguir os mesmos métodos. E se já não o fazemos para o ensino, então porque é que continuamos a fazê-lo para a avaliação?

O progresso faz-se devagar; nada muda da noite para o dia. Mas isto não é progresso. É antes um passo atrás na enorme caminhada que iniciámos no ano letivo de 2012/2013.

Continuemos o fantástico trabalho já iniciado, mas pensemos duas vezes nas implicações que os nossos atos podem ter para os nossos alunos. Afinal o que queremos é que eles tenham o ensino da melhor qualidade possível.

comentários