Como se valoriza o tema da Lusofonia

Por Veladimir Romano
De passagem fortuíta por Paris, uma semana deu para entender das potencialidades perdidas em divulgar a energia do mundo cultural Lusófono. Com uma variedade exclusiva de haitantes de quase todo o planeta, Paris, vivendo vai numa constante explosão. Não faltam comunidades portuguesas, caboverdianas, sãotomenses, gente da Guiné-Bissau, angolanos, algum povo da terra Maconde e respeitável número de brasileiros.
 
A cidade vive, fervilha culturalmente numa metrópole multiétnica, sempre em busca de novas etapas, novidades em fases de crescendo alvor; infelizmente, muito mal aproveitado ou partilhada pelas comunidades lusófonas. Tirando o Brasil (embaixada permanentemente promovendo valores), de longe o mais ativo, aquele que vai dando ofertas mais intensas em cada final de semana aplicando campanhas divulgadoras das suas atividades.
 
Quando há dois anos o governo de Sarkozy ofereceu com pompa e circunstância à comunidade caboverdiana um centro cultural, acreditou-se ser momento de viragem depois de tantos anos de espera. Contudo, esta oportunidade, desvaneceu no tempo, frustrante oferta, nunca ninguém algures, quer fosse conselho diplomático de Cabo Verde, ou grupos soció-culturais, algum dia fizeram aproveitamento da dádiva: fechando em definitivo agora mesmo no momento da nossa passagem. 
 
Esta incapacidade de saber gerir coisas boas e úteis para a comunidade, tem o seu quê de complexo e discutível a não dizer bem pior; quando se escolhem trajetos, criamos uma comunidade longe do país original, e o sentido será efetivamente dar a conhecer tudo quanto de bom existe e carateriza a personalidade desse povo, e o tema envolvente acrescido em torno das variantes interligadas entre si pela questão tanto clara quanto isso: a língua comum em diferentes tons, criando riqueza invulgar de efeitos corrente-continua. Contudo, sempre vai faltando o mais relevante dessa diretriz estampada no interesse organizativo. A Cultura não é um mero obejeto de ilustrar no palco juntando opiniões ocasionais para todo o mundo sair satisfeito tocando palmas.
A vitória não será essa. A título exemplar: Paris viveu seu momento onde a “Morna” (expressão musical das ilhas de Cabo Verde), vem sendo cantada e tocada pelo território gaulês, não só por Cesária Évora, a mais internacional das ilhas crioulas, mas uma, entre tantas outras figuras injustamente esquecidas, como Jovino, Jorge de Sousa, Maria da Luz, Jaqueline Fortes, Morgadinho ou, honra seja feita a um dos primeiros divulgadores dessa parcela cultural caboverdiana, deixada por Eddy Moreno (Adolfo Silva), ainda nos anos de 1950, gravando seu derradeiro albúm em 1986, numa homenagem ao compositor, músico e poeta: B.Léza, seu amigo e mentor.
Novamente olhamos em volta, e felizes ficamos de saber que tem sido o Brasil a grande fonte energética das iniciativas promotoras da candidatura da “Morna” a Patrimônio Imaterial Mundial da UNESCO. Mesmo Cabo Verde, o país interessado, não tem sabido comandar nem organizar a sua candidatura. Foi o Brasil, tomando deliberadamente dessa mais valia, dando assim uma gigantesca ajuda a quem realmente sai trapalhão nos instantes de serenidade e saber.   
Sente-se a existência duma Lusofonia, clara e fortemente comunicando, no entanto, brechas: apresentam formas desequilibradas, pouco servindo a causa idealista de enquadrar quantidades ricas de cultura para bem servir a humanidade. É isso justamente o desafio que falta compreender aos responsáveis organizadores diplomáticos e respetivos governos, do marasmo estratégico da CPLP: a Lusofonia não seja um mero instrumento a uns quantos burocratas necessitados de ganhar uns trocos e passear seus trajes de luxo, darem discursos recheados de retórica longe da realidade.
Ora bem, Paris continua e a Rádio Alfa (a mais antiga cadeia radiofônica em português), segue suas transmissões, facilitando com a música um rodopio de conhecimento sobre as variantes dos países lusófonos, tal como a literatura produzida nas páginas do “Latitudes”, revista com 10 anos de existência de altíssima qualidade, a duas línguas, uma iniciativa de velhos camaradas anti-ditadura, dedicados desde sempre aos primórdios culturais. Daniel Lacerda, Luiz Silva, Dominique Stoenesco, Manuel dos Santos, entre mais uns quantos ilustres dedicados à causa, continuam sonhadores.
Com isso, o exemplo brasileiro, consegue esclarecer e apontar um caminho ao qual deveria ser andado por Portugal como membro privilegiado da União Europeia e as restantes parceiros diplomáticos residentes em Paris: oportunidades que se vão perdendo. Porém, idem; não fosse igualmente o marcante apoio da Gulbenkian francesa, de absoluta certeza a cultura portuguesa seria mais pobre e a Língua estaria longe de marcar pontos. 

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