Contra coronavírus, escolas em BH pedem que alunos com sintomas faltem

Na TV, nos jornais e em grupos de WhatsApp, o assunto se repete no último mês: todos querem saber o que fazer para se prevenir da contaminação por coronavírus. Na sala de aula, é a mesma coisa. Em Belo Horizonte, onde são 54 casos notificados, escolas se mobilizam e mudam a rotina para tentar proteger alunos e funcionários.

Algumas delas têm orientado pais a evitarem enviar os filhos às aulas ao sinal de sintomas após viagens a países que têm sido foco de transmissão. É o que adota a rede Bernoulli, explica o diretor pedagógico executivo Marcos Ragazzi: “Se a pessoa viajou há menos de 14 dias ou teve contato com alguém que viajou, pedimos que a família fique com ela em casa.  E, se determinado aluno apresenta sintomas, precisamos identificá-lo, chamar a família e pedir que ela encaminhe ao médico”. Segundo ele, ainda não houve casos suspeitos na comunidade escolar.

A rede Mapple Bear, que conta com parte da equipe vinda do Canadá, segue a mesma cartilha. “Não podemos inviabilizar a pessoa de ir a escola, porque é um direito dela. Mas, caso ela ou alguém da família apresente sintomas, vamos pedir para não ir às aulas”, detalha a diretora pedagógica Marina Muzzi.

A Fundação Torino, outra escola com parcerias internacionais (focadas na Itália, um dos focos de infecção), recomenda que alunos com sintomas de gripe ou outro mal-estar mantenham-se em casa.

No colégio Santo Tomás de Aquino, o cenário se repete, conforme mostra uma nota da escola divulgada aos pais, na qual ela pede que alunos com sintomas suspeitos consultem um médico e, mediante atestado, não frequentem as aulas.

Antes de orientação médica, não existe recomendação de isolamento, mesmo com sintomas, informa o Ministério da Saúde. E, se o aluno não apresentar sintomas como febre e coriza após retorno de uma viagem, não há evidência técnica ou científica para justificar que alguém não vá a aula.

Em São Paulo, onde os primeiros dois casos de contaminação por coronavírus foram confirmados no Brasil, algumas escolas particulares estão colocando alunos que viajaram em “quarentena”, mesmo que não apresentem sintomas.

Zuleica Reis Ávila, presidente do Sindicato das Escolas Particulares de Minas Gerais (Sinep / MG) reforça: “Não acho que seja correto que escolas tomem medidas por conta própria, as instituições devem seguir as orientações dos órgãos competentes”. Ela diz não ter conhecimento de escolas belo-horizontinas que estejam impondo “quarentena” semelhante ao feito pelas paulistas.

Mudança de hábitos

A epidemia de H1N1 colocou as escolas de Belo Horizonte em alerta em 2009, levando práticas como aplicação de álcool em gel e cuidados no uso de objetos compartilhados. Agora, o cenário é reprisado. Tem sido assim na Escola Construir, no bairro Caiçara, que atende alunos dos Ensinos Infantil e Fundamental.

Os esguicho por onde os alunos bebem água direto dos bebedouros estão lacrados, para que usem apenas as torneiras dos equipamentos para encher copos e garrafas. Já é uma ação adotada pelo colégio nos meses mais frios do ano, entre maio e junho, quando casos de gripe são mais frequentes.

De acordo com a coordenadora pedagógica, Ana júlia Vilela, a decisão foi antecipar a medida por temor ao coronavírus. “Acredito que os bebedouros vão ficar lacrados até julho, mas vamos esperar para ver a repercussão do coronavírus”. Ela também conta que o lanche compartilhado dos alunos, em que todos levavam frutas à aula e as dividiam entre si, foi temporariamente suspenso.

Nas escolas da rede Mapple Bear, os horários para lavar as mãos foram ampliados. Antes, os alunos menores eram conduzidos a essa higiene ao comerem e usarem o banheiro, e agora contam com mais momentos espalhados pelo dia.

Educação no centro

“A principal função da escola é informar, principalmente porque essa geração é diferente da minha, que estou com 53 anos. Na minha juventude, assistir a jornal em casa era hábito. Essa geração já não assiste a TV, só anda com o celular, e acho pouco provável que esteja buscando informações sobre o coronavírus”, elabora Nilton Rondow, diretor pedagógico da Escola Santa Rita, colégio particular na região do Barreiro.

Pensando na disseminação de notícias falsas, principalmente em redes sociais, ele diz que o assunto tem sido explicado pelos professores durante as aulas, o mesmo que tem sido feito em colégios como o Bernoulli.

“É preciso orientar contra o pânico e não alarmar as pessoas de maneira desnecessária. O processo de educação é muito importante, como ensinar a evitar a doença. E não é só aprender a fazer isso na escola, porque o aluno sai daqui e vai ao cinema, à academia… Ele vai levar essas orientações à vida toda”, diz o diretor pedagógico executivo Marcos Raggazzi.

Nas escolas públicas

A Secretaria de Estado de Educação de Minas Gerais (SEE / MG) informa que vai reforçar o Programa Saúde na Escola na rede estadual, que desenvolve ações educativas com orientações para prevenção de infecções respiratórias, como o coronavírus. A Secretaria de Estado de Saúde de Minas Gerais (SES / MG) afirma que trabalha em uma nota técnica para orientar as escolas sobre ações preventivas, mas ainda não compartilha os detalhes.

Parte das escolas municipais e estaduais de Belo Horizonte estão em greve. A estudante Jussara Duarte, 14, é aluna de uma escola estadual na região do Barreiro e tem tido aula poucos dias da semana, desde o Carnaval. Ela afirma que o coronavírus não virou tema em sala de aula, mas que aprendeu pela TV e pela internet os cuidados básicos para se prevenir.

A mãe de Jussara, a dona de casa Graciane Duarte, 36, gostaria que a filha se aprofundasse no conteúdo. “Eu sei que vou ter uma conversa boa sobre o vírus se for ao centro de saúde, mas queria um diálogo na escola”.

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