A Cultura do hedonismo – Vale+ Cultura

Por Mauro Andrade Moura

 

Após muitos anos, debates, embates e três conferências nacionais de cultura, enfim o Vale + Cultura entrou em funcionamento.

 

Com toda a dificuldade que se tem em criar um currículo cultural, elaborar um projeto e aprova-lo em algum dos editais de cultura em nosso país, a pior fase é a de captação dos recursos.

 

Normalmente os artistas e/ou produtores culturais esbarram na captação dos recursos para o desenvolvimento das suas propostas que, pressupostamente, estão aprovadas pelas comissões de cultura e embasadas pelo certificado de aprovação para a captação do dinheiro que se vale da renúncia fiscal dos governos, seja ele municipal, estadual ou federal.

 

Alguma vez o recolhedor dos impostos, o empresário, declara da dificuldade do momento, mas a maioria vai mesmo do desconhecimento das normas vigentes, por achar que o fiscal de renda irá passar suas declarações em pente fino e, de outras vezes, é o contador da empresa que impõe a restrição que, para mim, em seu interior pensa, irá aumentar o seu trabalho e não ganha nada com isto e, assim, não adere ao projeto cultural que fora apresentado.

 

Para tanto, o meio mais prático e dinâmico de suplantar esta barreira foi a instituição do programa de renúncia fiscal do governo federal, o Vale + Cultura, em que as empresas aderem ao mesmo repassando a cada funcionário a módica quantia de R$45,00 e cada contemplado entra com a contrapartida de R$$5,00. Obviamente a empresa irá deduzir de seu imposto de renda os R$45,00 cedidos a cada funcionário.

 

Porém, o desconhecimento não é somente do empresário, é muito mais de alguns dos empregados contemplados com a benesse que pensam ser donos do dinheiro e podem gastá-lo, na verdade usurpá-lo, a seu bel prazer.

 

Nestes últimos dias li na rede social facebook comentários graves a respeito do mau uso deste dinheiro, foi como tivesse recebido um murro na boca do estômago.

 

Os comentários eram de que vários empregados da mineradora Vale (não confundir com o programa cultural Vale + Cultura) saíram pelas ruas de Itabira dispostos a gastarem o benefício recebido. Um deles era de que alguma loja de roupa pronta estava recebendo o cartão do Vale + Cultura para pagamento da compra de uma calça comprida, outro era se uma determinada pizzaria não recebia aquele cartão para pagamento do bem comestível (ainda bem que o proprietário da pizzaria, por bom senso, não aceitou a proposta indecorosa).

 

Pois bem, o prazer da criação cultural, a expectativa de ver o seu produto (livro, CD, revista e etc) ser vendido a preço justo e com pagamento garantido e à vista, se vê suplantado pela cultura do hedonismo, aquela em que o gosto de se sentir bem apresentável, vestir roupa de marca, um prato de comida além da necessidade básica é o que vale a pena, desprezando tudo o mais que foi feito em todos estes anos para se criar esta estrutura fiscal de benefícios ao trabalhador brasileiro.

 

Há vários exemplos de como a Cultura em Itabira é muito mal tratada pelo público. Espetáculos teatrais e musicais com ingressos a preços módicos e um mínimo de plateia; público que só vai ao teatro quando o ingresso é por troca de um quilo de alimento (o artista tem outras necessidades básicas além de comer) ou quando o espetáculo é em alguma praça pública e não tem como ser cobrado ingresso.

 

Infelizmente, há muito mais por fazer na seara cultural e, mais ainda, o de convencer o trabalhador de aquele benefício é dele, mas que o seu uso tem destino certo.

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