Entre o Medo, Indiferença e Desprezo

Por Veladimir Romano

Parando um pouco para analisar acontecimentos recentes, concluímos de maneira quase frustrante como partes importantes da sociedade vão desenterrando espasmos repelentes a uma civilização consumindo cargas perigosas de incerteza. Caso atendamos quatro ocasiões sociais hoje, basicamente de interesse internacional, vejamos apenas exemplos que podem oferecer imagens duma sociedade humana caindo em derrotismo.

Com desespero do novo partido da política britânica apontado defeitos, muito mais conservador e nacionalista, o UKIP (Partido Independente do Reino Unido) arrastou ingleses na saída da União Europeia obrigando a uma votação única e oportunista, que agora até anda sendo rejeitada por boa margem dos votantes que apontaram a saída; ou seja, o “Brexit” já fabricando muito má memória.

Depois de passar a euforia pelo lado errado do problema, boa parte dos votantes não pensaram direito e claro nas consequências da largada dando ao “Brexit” razões inexistentes: segundo várias sondagens da imprensa inglesa, dos 51,9% que votaram pela saída, numa recente sondagem, 17% afirmaram terem votado por influência, não pelo conhecimento, ficando esta percentagem arrependida pelo sucedido. Entretanto, na Inglaterra, com a entrada do ano 2017, anunciam especialistas do mercado, ficou esta economia em risco de mirrar 87 bilhões de libras (330 bilhões de reais) em negócios com o mercado europeu. Inglaterra é a 5ª maior economia mundial.

A outra metade dos votantes, em pânico generalizado, lendo nas entrelinhas todo o panorama deste anunciado desastre que antes não quiseram ver, vai colecionando centenas de milhares de assinaturas para convencer o governo da realização de outro referendo. Coisa impossível, esta situação é irreversível. Logo aqui apreciando o efeito projetado pelos irresponsáveis do partido que liderou a campanha e esse macabro desejo de pensar de maneira desprezível sobre o mundo e a arte de praticar egoísmo sobre os demais, produziu num ápice de milésimo, a indiferença.

Vejamos o caso da eleição do próximo presidente dos EUA, coisa séria demais para ficar brincando com interesses elitistas duns quantos membros da comunidade humana. Donald Trump, o escolhido pelos republicanos (entenda-se: forças obscuras do Tea Party), arruinando o partido histórico, líder na fundação e luta pela independência da nação norte-americana, onde passaram figuras fundamentais na evolução social, escolheram alguém que nunca passaria nos sonhos de muito boa gente. Crianças das escolas secundárias de Lisboa e periferia, já chamam a este candidato estranho, de “Homem Plástico”… Incrível que jovens de 10, 12 e 15 anos, se tivessem fixado nesta figura quase virtual, esse mesmo que o Partido Republicano deseja como futuro líder da nação de Abraão Lincon, Jorge Washington, Ulisses Grant; entre outros nomes grandes da histórica Casa Branca.

Com todas as agruras, indecências, esperteza, mau caráter até à destruição de milhares de empregos na cidade Atlantic, localidade costeira de veraneio a sul de Nova York; Donald Trump construiu múltiplos casinos, levados depois à ruína pelo próprio numa jogada suja para receber dividendos financeiros do sistema, assim não pagando aos trabalhadores. Mesmo acumulando bom lote de tropelias, conseguiu juntar fanáticos seguidores regularizando sua candidatura também ela plastificada, sendo ofensivo, debochado, sexista, racista encapotado, desonesto declarado. Pergunta o mundo o que vai acontecendo na cabeça duns quantos nas terras e outeiros do tio Sam.

Mais recentemente, na cicatrizada Colômbia, amassada com 52 anos de guerra civil perturbando, destruindo vidas a mais de 8 milhões de pessoas; finalmente, depois de vários anos e tentativas, conseguiu chegar com sucesso ao seu epílogo trazendo tão necessária paz para descanso não só dos Colombianos mas do mundo inteiro, em particular de quem sofreu com brutal e sangrento conflito mas onde nem o ganho do Prêmio/Prémio Nobel da Paz, levantou moral nas energias do bem; o ex-presidente Uribe (criando novo partido), arrastou atrás ideia contraditória mostrando como desprezo ajuda o medo incutido na mentalidade do povo dá na indiferença pelo sofrimento dos outros.

Em todos estes casos apontados acima, engorda o terror como realidade, monopolização da indiferença de uns para com outros, entre acumulações destinadas às mais profundas formas do desprezo ultrapassando emoções básicas. Atendamos a mais uma situação; aquela que esta semana a Polícia Federal de Nova York descobriu como resultado da investigação sobre a Wall Street (uma das maiores praças financeiras do mercado mundial), caçou informação que mais de três mil agências desta organização desempenham papel lobista por todo o território norte-americano aplicando quase três milhões de dólares (9 milhões de reais) mensais em propinas, justamente influenciando membros da classe política ou todo aquele pronto em aceitar corrupção como nome do jogo. Faltava somente a Wall Street entrar agora nos tribunais e aguardar pela justiça.

A cultura dominante baseada no medo está levando a humanidade ao vazio onde mora a indiferença e o desprezo; esta quebra de caráter, nos nossos dias já se vai transformando numa ideologia perigosa, exatamente porque aplica armas relacionadas fugindo de qualquer explicação mais racional. Ver como a maioria dos líderes, banqueiros e outras personagens envolvidas com o panorama social, morrem pelo poder sem uma única vez desejar respeitar valores que o próprio sistema democrático oferece.

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