A força bruta na configuração democrática

Por Veladimir Romano
Argentina não perdoa seus ditadores. A poucas horas do início do julgamento (08-07-2014), o capitão de Marinha Guilherme Féliz Botto, autor de 60 sequestros, 14 homicídios e 11 desaparecidos, diretamente implicado em 46 torturas; um dos 24 acusados pelo Tribunal Criminal Federal de Bahía Blanca: morreu! Do delito anti-humanista, ainda são acusados militares do Comando das Operações Navais da Armada, contra o povo, entre 1976 a 1978, através da Divisão Central de Inteligência.Em causa, também, julgamentos contra velhos opressores responsáveis pela horrenda “Operação Condor” (1970-1980), aliança político militar das ditaduras da Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Paraguai e Uruguai. A estimativa ultrapassa 100 mil vítimas mortais, acima dos 400 mil torturados. Recente no Brasil, reunindo memória dos 50 anos da sua demolidora repressão militar perante inexplicável tolerância de idênticos causadores desse sofrimento; estes, vivendo tranquilamente através da turva lembrança, muito pouco vai conseguindo a “Comissão da Verdade”, apelando a esclarecimentos sobre supostos assassinatos dos ex-presidentes Juscelino Kubitschek (de acidente duvidoso), a João Goulart, exilado na Argentina (vítima de medicamentos trocados).Enquanto isso, ruas de Buenos Aires, exigindo mais julgamentos aos militares assassinos de milhares de cidadãos, será das poucas nações impondo julgamento aos predadores que saíram manchando a dignidade do uniforme. Desta configuração tenebrosa e de análise em análise; perguntamos, porque razão não existe um tribunal penal internacional, exclusivo a julgamentos especiais contra ditadores da América Latina? Tribunal responsável, instalado, por exemplo, na capital boliviana (país detentor recorde de ditaduras e golpes militares _entre 1964-1982, sofreu 193_, onde Che Guevara, foi barbaramente assassinado).

Pelo meio de tanta impunidade, bem que podia ser a “Casa da Justiça La Paz”? A perfeita homenagem aos povos indo-afro-latino-americano, da quanta humilhação, famílias destruídas, vidas destroçadas das Antilhas aos Andes, milhares de homicídios políticos! Ora, os tempos são outros e, qualquer tribunal vocacionado a particularidades sobre julgamentos internacionais, não devia ser um privilégio especialmente europeu ou norte-americano!

Quem, como nós, preenchendo páginas da imprensa escrita, já o vem fazendo durante décadas, incluindo a cobertura de emissões radiofônicas, viajando quase meio-século, conhecendo cada canto do continente americano; igualmente experimentou amarguradas épocas desse obscuro comportamento das instituições militares, desde as Honduras, Guatemala, Nicarágua; à guerra do El Salvador. Nas democracias musculadas do Panamá, Equador, horríveis condições vividas na Bolívia, Paraguai… o sangrento golpe do Chile, pesadelos da Argentina e Uruguai. Anos de verdadeiro terrorismo do Estado contra o povo; deveria ser uma prioridade contemporânea, exigência das próprias democracias e da famosa sempre ativa: Liga dos Direitos Humanos, Amnistia Internacional, estranhamente passando ao largo do ato em dívida para com populações, sobre justiça que ainda não foi feita.

A Colômbia, no presente, continua juramentando sua chaga. Um aspeto foi conhecido: a desgraça bruta daqueles que souberam unicamente comandar pela lei repressiva do medo, assumindo ilegalidades na prática decorrente com apoio aberto das democracias lideradas pelos interesses financeiros, favorecendo na maioria desse oportunismo, os mais sombrios investimentos pela monopolização econômica em sociedades alheias. Foi assim a escravatura de crianças com a privatização dos militares nas minas bolivianas, protegendo membros da Alemanha Nazi.O hábito foi criando o monge, tanto a era dominada na força privilegiada do sistema: organizações financeiras disfarçadas na capa “democrática”, procurando comandar a riqueza natural de cada país em benefício duma elite sem escrúpulos, agrupada a qualquer preço, manipulando tudo e todos, criou força bruta na configuração democrática.

Daqui, a importância da integração econômica dos países, consigam juntar energias correspondentes ao maior acordo continental defendendo independência e a inversão de valores favoráveis ao desenvolvimento, mas também sensibilizando resistências contra esse desencanto de  virtudes dormindo na forma. Enquanto e, até quando, julgamentos sérios dos assassinos, manipuladores sociais? Ficando no apontamento da memória, cabe a todos, sim, ou não, valorizar o espaço dum tribunal internacional em território latino-americano?

Achamos ser assunto urgente, complemento responsável da sociedade política, consciência da democracia contemporânea marcando seu destino, assegurando procedimentos, revitalizando ao direito de todos o apelo cívico, julgando esses culpados que não podem fugir da História, pagando caro e rápido aquilo que andam devendo.

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