GABO, “UN HASTA SIEMPRE…”

Por Veladimir Romano

A existência física tem na sua composição humana, uma espécie de ficção consentida, quando chega o instante da partida. Parece o lado mais cruel da vida pela rapidez imposta, a eficiência desse processo natural, como a liquidez duma conta final que todos sabemos irá ser paga, em determinado momento. Não foi diferente com um dos maiores escritores e humanistas do continente americano.

Gabriel García Márquez, vinha anunciando nos últimos tempos, essa ausência física, algum repentino enfraquecimento em sinais pouco animadores da sua componente material, declarada decadência na hora de partida ao Infinito. Desta missão, só ele saberá, se acaso foi totalizada. Para nós, seguidores da sua magia literária, conhecedores dessa trajetória, cai a cortina invisível possuída de memórias mantendo quantos sonhos vivos dentro de cada um, participantes da maravilhosa aventura planetária. Gabo, seu apelido desde a infância quando criado pelos avós numa Colômbia problemática demais para ser real, não escolheu essa partida só na semana de Páscoa Santa, possivelmente para homenagear seus antepassados crentes, dedicados ao cadinho da sua primeira educação e formação moral, mas escolheu o momento flagrante do acontecimento cósmico (do qual ele gostava); o eclipse, seguido da lua vermelha. Dois fenômenos que sempre ocuparam os bate-papo do autor. O marco universal duma eternidade diante dos nossos olhos ainda escondida.

Gabo, frisou numa oportunidade rara, em Corinto (encontro de pessoas escrevendo em castelhano, organizado pelo regime Sandinista, na Nicarágua), ser difícil não acreditar numa outra vida, livre de injustiças, limitações e lutas sociais. Considerava ele, o planeta conter essa mediocridade desenvolvida em escaladas desgovernadas de miséria, tendo em conta o nível de egoísmo, ignorância e vaidade, como fatores dum subdesenvolvimento espiritual.

Anos depois, na Suécia, saboreando seu merecido prêmio literário, jornalistas locais foram perguntando qual era aquele seu segredo para escrever tais obras; ele apenas respondeu que segredos não tinha nem muito menos inspiração, mas sim bastava abrir a janela de sua casa, olhar de cima para baixo, nunca fugir do olhar sobre a miséria humana, a desgraça quotidiana da sua cidade, Bogotá. Certamente, não sendo caso virgem, teve ele o talento em descobrir nessa leitura diária, conteúdos fundamentais, reciclando essa riqueza ficcionista, continuando o realismo fantástico outrora marcado por Minguel Ángel Asturias (Prêmio Nobel de 1967), escritor da Guatemala, Jorge Amado (brasileiro), Julio Cortázar (argentino) ou Ricardo Pozas (mexicano), entre tantos outros.

Acontece de maneira diferente, ao ser laureado Nobel, dando enorme dignidade a quem vivia da escrita; ofício de jornalista a escritor, na Colômbia, virou novo olhar nessa acreditação profissional, graças a Gabo. Um meio difícil onde a sobrevivência através da escrita correu riscos sérios. Uma Colômbia que andou perdida, deixando cair valores desde logo, uma nação afortunada em sensualidade, raça e bens. Um mundo colorido, dividido na vizinhança antilhana onde o mestiço e o africano se cruzam nos sons musicais de riqueza única.

Essências, identidade e existências marcando cada página na vida dos colombianos a quem Gabriel García Márquez generosamente lutando com seu trabalho, ofereceu de volta uma dignidade nacional que andou perdida. Mais: todo o mundo latino-americano, recebeu essa dádiva, elevando a importância global desses cantos do continente. Por isso o refúgio mexicano, permanência na pátria de Emiliano Zapata e Pancho Villa, agradecendo de consciência em marcante humildade tão realista quanto sua obra, esse acolhimento; ali deixou muita energia, a força dum personagem humano de enorme grandeza.

Seu corpo físico vai feito já cinza… derradeiro marco da imagem material; sua alma, certamente brilhando, andará logo, depois do desenlace, algures junto das estrelas mais brilhantes, pelo brilhante que foi, pelo solidário e exemplo de cidadania universal, legendário ainda em corpo presente mas já imaginando todas aquelas milhares de borboletas amarelas, representando páginas dos seus livros, seu mundo criativo, acompanhadas por milhentas outras rosas igualmente, amarelas, sua cor preferida, seu amuleto em festa funerária onde a música marcou diferença nas pautas de Béla Bartók (compositor húngaro: 1881-1945) e na voz de Óscar Chávez (1935), outro mestre da liberdade, brilhando pela estrela da História, a célebre composição “Macondo”, apaixonada na alma do escritor. Em boa verdade… não podia ter sido melhor… só resta dizer a Gabo, “un hasta siempre…”!

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