Herberto Helder: o pai das tempestades e da bonança

HERBERTO HELDER: O PAI DAS TEMPESTADES E DA BONANÇA

Por Veladimir Romano

 
Morrer, às vezes não é tudo, apenas um acontecimento previsto mas sem data anunciada, particularmente quando o procurado por essa força estranha e divina já se dá em adiantado estado de reclamação. Acontece, marca sim, datas para aqueles que ficando, correm a sinalizar o calendário para que os restantes não se esqueçam que naquele dia, partiu alguém.
 
Foi isso mesmo, o acontecido e já esperado desanuviar do corpo carregado de limitações, canseiras, mazelas, esgotado e pronto à reciclagem, marcando este uma trajetória. Morreu Herberto Helder; personagem estranho àqueles que não tiveram esse privilégio ou sagrada oportunidade de o conhecer, haver convivido, partilhar pormenores, ideais a um mundo melhor para todos. Conhecer a risada serena e calma de Herberto Helder; a lógica da sua visão profundamente crítica em relação à sociedade capitalista, sempre esteve na sua condição de ser como ele foi: igual a si próprio… transparente!


Herberto Helder partiu e com ele partiu uma força singular de escrever português numa dimensão maior. Foi um nato e exclusivo criador de tempestades por onde a magia espalhou sonhos partindo das suas palavras carregadas de riqueza, enquanto não chegava a outra faceta embebida na bonança, depois, o descanso aparente… apenas um intervalo forçado para novas embalagens intempestivas mas logo arrecadadas ao silêncio… e, nem valerá a pena descrever o vigor expressivo da sua prosa, caso o tempo chegasse, teríamos o resto do tempo desta vida para o incluir nos manuais dentro ou junto aos grandes dos maiores.
 
A força invulgar no trabalho oferecido pelo poeta e homem da escrita, nascido na ilha da Madeira, deixa tanto na Língua lusitana como na herança de tantos poetas originais, não e nunca apenas mais um; mas sim, uma figura muito particular na sua forma totalizadora como humano e consciência cívica; estabelecendo eixos itinerantes em torno cultural e reencontro quase geográfico com as coisas que mais gostava, necessariamente a poesia, para ele igual ao ar respirável dos seus pulmões. Contudo, a política, desde muito cedo o Partido Comunista Português, onde durante a vigência do fascismo, o obrigou a emigrar, deambular pela Europa, coisa que nunca o convenceu a situação de emigrante frustrado apenas para ganhar dinheiro. Para tanto, já se desiludira com os estudos académicos: primeiro na faculdade de Direito e seguidamente às Letras. Nunca desejou ser “doutor”, para isso, já ele era de forma genial.
 
No entanto, aquando da fresca aurora do 25 de Abril, integrou a ala mais esquerdista do Partido Socialista, sonhador como muitos e convencido da felicidade social; porém, como tal, engano de tantos, caiu-lhe a tristeza e daqui ao isolamento, foi a fuga encontrada, tanto que um dia afirmou que “Deus se estava a esquecer dele…” pois “já devia há muito ter morrido…”. Nunca foi obsessão, antes desilusão do mundo e dos homens. Nunca mais acreditou em mais nada, mesmo negando receber um dos prémios mais apetecíveis da ordem literária. O “Fernando Pessoa”. Estava vivo, mas andava morto para o mundo.
 
Extraordinário, este Herberto Helder que tive a feliz oportunidade de o conhecer no dia como outro qualquer quando rapidamente importante ficou. Decorria o ano de 1965 e José Cardoso Pires já preparava o lançamento do “Delfim”; nos escritórios da Morais Editores, pelo final da manhã, entrava Herberto Helder à procura de João Benard da Costa e, eu fui quem apressadamente o conduziu ao gabinete. Daqui, a história é muita apesar da idade ser adolescente, a memória das conversas, dos dias de amizade crescente e duma admiração sem paralelo, reuniu virtudes para hoje dizer que gente como Herberto Helder, nunca morrem, apenas ficam ausentes por tempo indeterminado… Ele sim, o homem da liberdade!
 
…Ou como frisou num dos seus poemas Mário de Andrade:
                                       “Não acordes tão cedo! enquanto dormes
                                        Eu posso dar-te beijos em segredo…
                                        Mas, como nos teus olhos raia a vida,
                                        Não ouso de filtrar… eu tenho medo!”

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