Lembrando Pixinguinha e das afinidades

Por Veladimi RomanoPassou a influência natalícia, mas velhas recordações ficam como o melhor presente que qualquer humano contém na sua memória. Os anos de 1960, Lisboa marcou e muito, sendo corredor de passagem obrigatória aos emigrantes chegados da colônia de Cabo Verde; indo primeiramente para França, Bélgica, Holanda, Suécia e Noruega; destinos nem sempre finais a estes grupos, na sua maioria masculinos, marítimos. Seguidamente, a emigração feminina, foi estabelecendo outras comunidades em Portugal, França, Espanha, Senegal, Luxemburgo, Itália e Grécia.

Depois de vários anos de trabalho farto, do sucesso ao conforto econômico; Lisboa, era fundamental na passagem dos emigrantes de volta às ilhas. Na bagagem, viajavam bem aconchegados, discos de vinil com destaque às coleções musicais editadas no Brasil. Entre o vai e espera pelo dia da viagem: música, era coisa que não podia faltar de manhã, até ao final da noite. No destaque aprazado, entre atenções e prazeres, não era novidade escutar o bom do Pixinguinha; ora de flauta ou fazendo valer aquele seu estilo inconfundível em saxofone-tenor.

Poderíamos explorar, caso fossemos da ordem psicológica, muita teoria baseada na ligação das afinidades entre povos, apenas escutando sons da união cultural em reconhecimento do estilo musical despertando nossa audição, mais do que outro qualquer. No entanto, valorizar a criação e o poder genial do artista nascido a cumprir da sua missão com esse assumir do poder criativo, marcou definitivamente sentimentos afetivos, inclusivamente confundindo os portugueses, mal conhecedores das suas colônias; chamando de “brasileiros”, aos caboverdianos.

No pleno mês quente de agosto (hemisfério norte) em Lisboa, quem logo bem cedo passasse junto das residenciais de janelas escancaradas, escutava uma variedade de melodias onde o maior destaque ia de Cabo Verde ao Brasil. Daí, nem tão poucos locais, pecando pela sua santa ignorância, confundiam habitantes duma colônia por outra já com o seu caminho feito na independência desde o século XIX, enganava a consciência ausente do povo lisboeta.

Pela primeira vez, escutar Pixinguinha, foi reentrar pelo mundo onde a maré dos apelos mais se unem ao sentir do povo das ilhas de Cabo Verde: daqui, uma inevitável irmandade aos poucos descoberta sendo como aquele tesouro, afinal, existente algures, colocado no contexto geográfico doutro continente entre o estranho que a distância obriga e o parecer da igualdade por onde navegam sentimentos afoites, deliberados em ordem natural.Anos e anos depois, descobri o verdadeiro nome que sempre pensei ser a sua imagem de marca: “Pixinguinha”, para Alfredo da Rocha Vianna Filho, carioca de gema, nascido em finais do século XIX, logo bebeu o bom do ambiente musical familiar; rápido mostrou suas capacidades ainda que aprendendo a dominar de forma doméstica essa ciência musical aplicando seu interesse da flauta ao saxofone, compondo, interpretando, arranjando, oferecendo à cultura brasileira uma imensidão de pautas onde a plenitude do choro ganhou estatuto bem graúdo.

Outros gêneros como o maxixe (espécie de tango brasileiro), samba e valsa; destacaram a força intuitiva do genial Pixinguinha, atravessando o Atlântico, fazendo gala nas ilhas de Cabo Verde onde músicos locais abraçaram essa chama em fontes redobradas de inspiração. O caso de três grandes nomes da cultura musical das ilhas de Cabo Verde, juntou três gerações de tocadores na arte dos instrumentos de sopro: Sassá, Duca e Luís Morais. Todos membros da mesma família, emigrados na Holanda, com Luís Morais, ainda fazendo uma passagem pelo Senegal, país onde nasceu a raiz de um dos grupos musicais mais célebres das ilhas… o “Voz de Cabo Verde”.

Aos domingos, no coreto da Praça Nova do Mindelo (ilha de São Vicente), depois do almoço, a música não faltava… e, Pixinguinha, se não abria a tarde musical, pelo menos fechava. Sem Pixinguinha marcando presença, não havia domingo musical completo. Assim, escutar as variações sonoras de “Carinhoso”, “Lamentos”, “Vou Vivendo”, “Conversa de Crioulo”, “Cafezal em Flor”, “Carnavá tá aí”, “Céu do Brasil”, entre outras composições afortunadas, era um domingo preenchido no seu pleno.

Porém, em janeiro de 1963, deu início a campanha política da luta armada pela independência de Cabo Verde e da Guiné-Bissau, levando os dois povos na criação do PAIGC (Partido Africano da Independência da Guiné e Cabo Verde). O efeito, conduziu ao arquipélago juízes ligados ao regime, como a polícia secreta do Estado: a PIDE (Polícia Internacional e Defesa do Estado), que logo tomaram em atenção as festas dominicais apresentadas pelos músicos locais no coreto tanto do Mindelo, como na capital, Praia (ilha de Santiago).

Não tardou que a coceira deu de ataque na audição preconceituosa dos defensores do sistema fascista e colonial, atacando aqueles que faziam das tardes de domingo momentos de feliz lazer, divulgando um compositor que muito possivelmente nunca escutou falar de tal terra ou lugar onde suas composições são ainda hoje celebradas com particular destaque pelos salões nas festas carnavalescas.  “Amigo do Povo”, “Conversa de Crioulo”, “Foi Muamba”, “Sofres Porque Queres”, “Benguelê”, “Naquele Tempo” e “A Vida é um Buraco”; levaram os músicos do coreto da Praça Nova do Mindelo ao posto policial, ficando avisados que ditas composições teriam de primeiro passar pelo crivo da Censura. Coisa que todos ignoravam, de que jeito uma música feita no outro lado do oceano, pudesse ser tão assustadora, colocando em risco o regime fascista.

O Brasil, ao longo da sua grande fronteira marítima, foi palco da recolha de muitos trabalhos musicais, daqueles com os quais marítimos caboverdianos fizeram gala visitando Santos, Rio, Vitória, São Salvador, Recife, Fortaleza, Natal, São Luís, Belém, Manaus, Porto Alegre, São Francisco do Sul, João Pessoa, entre outras paragens brasileiras onde foram descobertas novas afinidades que a música de Pixiguinha, neste particular, elevou o sintoma espiritual que a cultura também contém pelos trajetos deixados de personagens ricos, oferecendo heranças que depois devem ser preservadas, divulgadas e defendidas. Do Natal ao fim de ano com Pixinguinha, definitivamente, é outra coisa. A memória cuida, o povo agradece!

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