Mais ou menos (ou a melhoria do cocô)

joseluizaraujoAs mais diversas pesquisas globais sobre educação mostram sempre o Brasil nos últimos lugares. É preciso agir com a máxima urgência. Há mais de dez anos que o País percebeu que não tem mão-de-obra qualificada nem para balconista. Agências de emprego têm submetido candidatos de nível superior a testes de ditado com resultados catastróficos. Isto vem do falido sistema educacional do País, da baixa escolaridade e da baixa qualidade deste processo. Mas nem isto desperta o interesse dos gestores públicos. E não é só na educação pública. A ineficiência está em tudo que é público no nosso País, com exceção da receita pública. No mais, o que é que funciona bem? A saúde, a segurança, o transporte, o saneamento?

A população se acostuma e aceita esta situação porque também foi vítima desse mesmo sistema. A filósofa Olgária Matos (Folha-SP/97) disse que “Há uma desconsideração total com aquilo que é básico do ser humano, que é a educação formadora”. Um estudante malformado terá dificuldades para desenvolver o senso crítico e a consciência cidadã. Qualquer serviço mais ou menos, paliativo e até malfeito, para ele, estará ótimo, uma beleza!

O mais-ou-menos virou regra no Brasil. O Estado oferece um ensino público mais ou menos e proporciona condições de trabalho mais ou menos, salário… só menos; muitos professores ensinam mais ou menos e os alunos, por sua vez, estudam mais ou menos, inconscientemente, é claro. Muitos vão à escola sem a plena consciência do que vão fazer lá. Os pais, que são da primeira geração do atual sistema, não ensinam nada em casa. A maioria dos jovens vai à escola para se encontrar com os amigos ou namorada, para matar o tempo, para não ficar em casa brigando com os pais e até mesmo para se livrar das tarefas domésticas.

Resumo da ópera: por um lado, o estudante se forma, se ilude com seu diploma e vai dar com os burros n’água; por outro, o Estado, que constrói e equipa a escola, paga os professores e a merenda, lava as mãos.

Mas, não será este o verdadeiro interesse? Uma população malformada, mal-informada, facilmente manipulável? E a indústria, a mídia, a política, o comércio, também entram aí, incentivando mais e mais o consumo e explorando a falta de senso crítico da população. Na hora do voto, o cidadão escolhe um candidato mais ou menos, com propostas mais ou menos; depois questiona ou reclama mais ou menos. Ao contratar um serviço, contrata aquele mais ou menos, que tem um preço mais ou menos. Na hora de comprar produtos… mais ou menos. Em relação à cultura e à arte, mais especificamente à música… só menos, também. Basta ouvir. O economista Décio Lima (Estado de Minas/2000) disse que: “… somente é permitido produzir sonoridades padronizadas, simplificadas e codificadas… este processo é peculiar à formação da massa amorfa, sem vontade ou desejo, que consome sem crítica qualquer produto… é o mundo das nádegas rebolativas e das cabeças vazias”.

À base do mais ou menos, há um sem-fim de coisas. Assuntos de interesse público são difundidos mais ou menos em benefício do particular; obras públicas são executadas mais ou menos; as particulares, nem se fala. O transporte público é mais ou menos, com ônibus mais ou menos. As leis de trânsito, no papel, uma belezas, mas, na prática, mais ou menos. Que condutores as auto-escolas vão formar se elas próprias estacionam seus veículos no passeio? A Caixa Econômica, em Itabira, fez um passeio com quase um metro de altura, o que não se fazia desde o século XIX, além de transformar um prédio bonito, de mármore, num caixote de cerâmica de gosto duvidoso.

Será que há interesse em coisas boas? A escritora Lygia Fagundes Telles (Roda Viva/1999), pelo que disse, acha que não: “No dia em que tivermos mais escolas e creches teremos menos cadeias e hospitais”. É que cadeias e hospitais custam caro; escolas e creches custam quase nada. Será que há interesse em fiscalizar realmente, será que os administradores querem as coisas corretas, de verdade?

Isso tudo faz lembrar o psicólogo Valdez Luiz Ludwig (Programa do Jô/99), quando disse uma expressão que se encaixa como uma luva neste hábito de fazer as coisas mais ou menos: “O que se está fazendo no Brasil é a melhoria do cocô”!

Chega de mais ou menos! Chega de obrinha meia-boca! Chega de paliativo! Chega de serviços básicos. Pelo que pagamos, merecemos serviços plenos!

 

José Luiz de Araújo – Auditor Fiscal de Posturas e Serviços Concedidos – PMI

Itabira – Fev-2014 – j90.araujo@gmail.com

 

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