Milagre musical mineiro

Minas Gerais é do ouro. Ao redor das minas, um novo povo nasceu e floresceu, em toda sua exuberância: nobre, distinto, precioso. Com a farta riqueza do ouro, uma sociedade urbana se formou ao lastro e à sombra de seus minerais, proporcionando a integração do que havia de melhor nas várias matrizes que habitavam e faziam o Brasil-Colônia.

Da tecnologia do Europeu, da espirituosidade do negro e da boa convivência dos indígenas a Era do Ouro produziu gênios improváveis e deixou um legado amparado no que havia de sofisticado no Brasil do século XVIII. A produção cultural da Era do Ouro foi o encontro dessas diferentes matrizes, um entrelaçar e somar de gêneros e estilos. Talvez por isso, impensada, inusitada, improvável e mágica; divinamente mágica.

A música pré-clássica europeia não foi simplesmente repetida aqui. Mas a ela se incorporaram os elementos que povoavam as minas, como a sonoridade rítmica e os cânticos dos negros e os instrumentos e vocalizes dos indígenas. Aqui a pauta não era plana com a geografia do Velho Continente, mas seguia o desenho do horizonte, em um sucessivo subir e descer montanhas de quem quer alcançar os céus e tem a sua frente o infinito. Podemos dizer que no cadinho do tempo, as várias formações musicais dos que aqui chegavam e viviam se fundiram harmoniosamente, gerando uma terceira arte.

Fato que ilustra bem essa constatação e já faz parte da história da música brasileira foi o episódio narrado em livro pelo maestro Júlio Medaglia, que enviou para uma das maiores autoridades em música pré-clássica da Europa a partitura de uma música composta no século XVIII, com a seguinte indagação: “Professor Sr. Hans Holm, o senhor que é diretor do Arquivo Nacional de Munique e a maior autoridade europeia em música pré-clássica terá tempo ilimitado para identificar o autor desta música, onde viveu e em que época”. A resposta veio de Munique: “É música de primeira qualidade, escrita por um ‘grande mestre’, estilisticamente o mais puro pré-clássico, e foi composta dentro dessa região” (indicou no mapa um perímetro geográfico que atingia mais ou menos o sudoeste alemão, noroeste da Áustria e norte-nordeste da Itália, proximidades onde circularam com frequência mestres como Johann Cristian Bach, Sammartini, Gluck, Vivaldi e Mozart). Medaglia lhe respondeu: “Quanto à primeira parte de sua reposta de pleno acordo, mas quanto à localização da obra houve um pequeno engano de quase 10.000km… Essa música foi escrita por um mulato em pleno sertão brasileiro”. Em que outro lugar do Brasil-Colônia um mulato poderia compor uma música com essa magnitude senão nas minas, no caminho entre a senzala e a sacristia?

Minas é a terra do improvável, do raio de sol que corta as nuvens antes da tempestade. E não da lama que desce a montanha para soterrar a nossa história. E o milagre musical do Mulato mineiro do século XVIII renasceu séculos depois, na confluência de suas esquinas.

Petrônio Souza é jornalista e escritor

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