O anjo de bola no pé…

Por Veladimir Romano


A notícia da sua morte foi fulminante e de surpresa chegou:elevando mil apontamentos de memória, reavivando imagens, mexendo com calendários passados e alegrias sem preço. 

Deixou a vida física e do seu regresso aos planos astrais, certamente terá na sua chegada em festa e glória recebido com entusiasmo celeste não só pela trajetória, mas pelo cidadão mundial que ele foi marcando cada cantinho do planeta por onde viajou vestindo as cores dos clubes representados como o Santos e as outras do escrete canarinho.

 

Aos 84 anos, um corpo, ainda que não queira desistir da sua missão; porém, já não pode resistir às ordens naturais do processo material. A doença, será apenas um mote para a saída do palco e desta vida cheia de arrepios e desafios. Djalma Santos, outrora recheado de apelidos tais como o “Homem Aço”, “Sr. Academia”, “Anjo do Gramado”… ficou mesmo foi o “Nariz de Fornalha”, pela compostura fisionômica do seu aparelho nasal.

 

A imagem feliz, discreta e a segurança que transmitia aos times, foi passando para fora do gramado, tão completa quanto a ligeireza, transparência e a realidade do seu profissionalismo feito de altíssimo respeito pelo adversário e colegas, garantiu o personagem, hoje histórico, deixando saudade. Só assim se compreende das suas mais de 1.100 participações em jogos oficiais, nunca tenha sido expulso. Foi o primeiro jogador da seleção brasileira vestindo a camiseta mais de uma centena de vezes.

 

Djalma Santos deslumbrou a torcida do Benfica quando disputou as duas contendas da Copa Intercontinental ganha pelo Santos (a segunda que a equipa portuguesa perdeu, ficando a primeira nas mãos do Penharol). O seu figurino plantado a lateral direito, considerado desde logo cedo como um dos melhores, continua nos tempos decorrentes marcando surpresas refinadas impossíveis de esquecer. Mas não só; a simpatia, simplicidade e o poder comunicativo só do seu olhar, deu outro campeonato ganho eternamente para o nosso Djalma Santos.

 

Ele foi espalhando esses valores pessoais, espirituais carregados ao longo de quatro gerações, oxalá as próximas fiquem com tudo quanto ele tão bem foi transmitindo. Uma verdadeira essência de calor humano que a localidade de Uberaba teve a honra de guardar, Minas Gerais, onde igualmente ele se lembrou de criar uma escolinha de futebol. Paixão infinita espalhada reforçada na sua passagem pelo Palmeiras, a Portuguesa, Atlético Paranaense e, até de treinador ele teve sucesso no EC Vitória.

 

Por isso, os campeonatos mundiais conquistados em 1958, na Suécia que marcaram um princípio fenomenal de carreira e depois no Chile, em 1962, já como efetivo na linha lateral, chutando aquela medida certeira na cobrança de faltas para dentro da área, são um corolário de alegrias impagáveis a todos quantos de nós foram guardando essa memória rica, sã e sentimental junto de Djalma Santos.

 

Arrumando as chuteiras pelos 41 anos, a saudade marcou pontos enquanto a gente foi também guardando suas exibições no Estádio da Luz, em Lisboa, aplaudido pela torcida portuguesa que nunca esqueceu o “Nariz de Fornalha”… mas que tão igualmente, alguém sentado numa bancada super lotada… ia dizendo que ali naquele gramado, havia um anjo de bola no pé…   

comentários