O Homem dos três destinos

Por Veladimir Romano
Anos 60, em Portugal, são anos de intensa guerra colonial, perseguição política, tristeza e frustração coletiva, quando o símbolo da esperança é assassinado pela polícia política do regime fascista português com a conivência espanhola em Badajoz: o general Humberto Delgado. Porém, com a chegada dum menino de 17 anos de nome Eusébio da Silva Ferreira, numa história própria de rocambole, o sorriso da vida bateu no cinzento-escuro, voltando ao rosto de muitos portugueses o brilho do sol matinal.
O jovem, natural de Moçambique, jogador do Sporting de Lourenço Marques, então capital colonial, foi antecipadamente arrebatado pelo clube rival de Lisboa: o Sport Lisboa e Benfica, também maravilhado pelas invulgares habilidades do jovem jogador.  Acanhado, menino simples mas bastante talentoso. O Sporting Clube de Portugal, enquanto contava verba necessária, o banqueiro dirigente do clube da águia, adiantou a parada ao clube local de acordo com a mãe do craque; seguidamente, antes do rival leonino descobrir, já Eusébio estava viajando para Lisboa.
Assim duma só vez, da oportunidade e, em Lisboa, escondido por algumas semanas no Algarve, vivia Eusébio a sua primeira peripécia já com estatuto de estrela, embora ele, na sua muito natural modéstia, estivesse por cima dos acontecimentos. Foi-lhe dito ali ser um lugar para descanso com clima mais ameno, visto o inverno em Lisboa andar frio e ter ele de esperar mais umas semanas até ao começo dos treinos.
Eusébio finalmente chegaria aos gramados lusitanos, pouco depois, logo marcando terreno, deixando seu estilo de «pantera» solta nas quatros linhas do jogo. Sua missão foi essa, levantar moralmente um povo, não só questão de clubite. Sua genuína paixão pelo futebol, a simplicidade da sua alma, a humildade sempre permanente na sua vida, a entrega e harmonia do seu caráter, deu para mostrar ao povo, que para ser gente feliz, não precisaria muito, não! Apenas uma bola e praticar limpo, jogar com amor, ao mesmo nível da garra, da coragem… ser verdadeiramente livre naquele pedaço de terreno fechado por quatro linhas.
As alegrias, satisfação, a leveza dum ser ante uma ditadura, o sonho rico de orgulho enchendo as bancadas dum estádio, a curiosidade do mundo em ver esse tal de jogador que ganhou fama e passou de menino a «Pantera Negra», ganhando respeito, admiração dos adversários, amizade pelo mundo todo; fez de Eusébio junto com Pelé, os maiores símbolos do exporte/desporto em todo o planeta… e falado em português.
A ditadura reagiu. Nunca deixando Eusébio concretizar seu sonho de jogar em Itália quando convidado pelo milionário Inter de Milão, oferecendo Moratti, presidente italiano, 1 milhão de dólares pelo passe de Eusébio. António Salazar, mandou recado que o jogador não ia sair do país; pois era «patromônio do Estado»… pudera, Portugal se qualificava pela primeira vez para a Copa Mundial de 1966. Conquistaram os «Magriços» a terceira posição depois duma campanha onde Eusébio se consagrou definitivamente como vedeta internacional.
Depois da independência da sua terra natal, juntamente com seu colega do time do Benfica e da Seleção Nacional, capitão Mário Coluna, compadres e apoiantes secretos do financiamento do partido lutando pela independência, a FRELIMO, muitas foram as ocasiões do suporte de Eusébio pelas causas do seu país de origem. As crianças que ele nunca esqueceu, indo pelas escolas durante meses a fio, mas de maneira muito discreta, sem alarido, ajudando o quanto pôde.
A pouca instrução académica nunca atrapalhou a vida simples, dedicando tempo pela família, pelas várias escolas-futebol dos mais jovens benfiquistas, clube a quem dedicou a vida, esforço, criatividade, cuidados e até saúde. Quantas vezes sem poder, magoado, com febre, mas determinado: entrava no campo lutando com a mesma vontade, seriedade e entrega. Um exemplo e modelo de jogador.
Por isso as bancadas dos estádios de todo o mundo reconheceram sua partida ao além; indo o corpo, fica a rica história dum homem que soube ser HOMEM, em todos os apetos da sua existência; pelo lado da naturalidade HUMILDE foi, sendo duma HARMONIA invulgar como jogador. Sabemos que foi feliz porque soube compreender da sua missão terrena, fazendo parte dum lote mundial de jogadores maravilha que valorizam mais ainda o estatuto do seu grande talento do futebol mundial.
Obrigado Moçambique pelo cidadão Eusébio da Silva Ferreira… obrigado Pantera Negra pelas glórias que perduram na minha memória de menino feliz. 

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