O irreversível trajeto das marionetes fatalistas

Por Veladimir Romano
Nas últimas semanas, Portugal, pelos piores motivos, tem saltado de página, em página, da imprensa mundial; abriu informativos no palco das televisões, emissoras europeias, onde vai ocupando lugar ligeiramente acima do nível de afogamento. O Eurostat anunciou que a média de corrupção na Europa, desde o ano 2009, aumentou 20%, mas que em Portugal, atingi já 27%, com a crise.

Coisa séria: logo depois da conquista da liberdade e a chegada do tão desejado instante democrático na leva do 25 de Abril, a entrada no mercado comum europeu, o consequente crescimento das exportações, a estabilidade dos emigrantes portugueses espalhados pelo mundo, enviando divisas monetárias; ocuparam o vazio financeiro, o econômico/económico numa aparente revolução,modernizando a nação portuguesa.

No entanto, com a crise global, vários fatores arrastados defeituosamente do sistema capitalista com mercados liberalizados especulando selvaticamente, originando economias paralelas, provocando exponencial aumento de paraísos fiscais, crença em torno dos favorecimentos, o cimentar da promiscuidade; vieram cair justamente naqueles países  mais enfraquecidos, embora dentro das aparências de energias soltas, estivesse uma sigla financeira produzindo tóxicodinâmica bancária.

O resultado não podia ser outro que fosse uma destruição massiva sobre a vida das pessoas. É deste modo que a pátria Lusa, vê políticos de carreira, prefeitos, advogados, empresários, gente da banca, pessoal demasiado conhecido, até um dia, tudo caiu, ficou ruindo feito castelo de areia na borda do mar.

Tanta corrupção junta que um amigo meu desabafando, argumentou… “Eh, pá, já viste isto?! Portugal tem 90 mil quilómetros/quilömetros quadrados de território, mas em corrupção, terá aí pelo menos, uns 400 mil…
Parece que 2 em cada tuga: 1, deve ser… depois, como não querem que as antigas colónias o sejam também…?!”. Em Portugal, segundo a OCDE (da sigla francesa Organização Cooperação e Desenvolvimento Económico), fogem por ano a causa da corrupção: 120 bilhões de euros… mais de metade do recente empréstimo do IMF/FMI (Fundo Monetário Internacional).

Depois do papo com o velho colega da minha mais feliz infância, fiquei realmente pensando na ironia, indignação, revolta, como esse velho capanga desabafou. Um país tão pequeno, mas de corrupção tão elevada, sofisticada, bem planeada, grandemente enraizada no sistema, dobrando gerações; igualmente, fiquei na minha caçoada. Só pela demarcação de tanto crime espúrio, está valendo a crise, transformando tudo num teatro irreversível de
marionetas dedicadas ao trajeto fatalista.

O espanto tem sido geral entre todas as sequências desse mesmo teatro de mau gosto projetado pelo país dos artistas feios, maus, enganadores, entre alguns que estão totalmente fora do baralho; filme demasiado disforme. Portugal, efetivamente, nunca teve uma estratégia de luta anti-corrupção; herança dos tempos da ditadura, tal como a Espanha. Basta para tanto relembrar o famoso caso policial da privilegiada família Juan Vilà Reyes
(anos 60), beneficiando do indulto do governo franquista em mais de 20 bilhões de pesetas (equivalente a 13 bilhões de euros).

Deste modo, não tem democracia que consiga manter suas resistências, a um passo da sociedade zumbi, incluindo nas injustiças alimentadas pela própria cobertura de ilegalidades criando todo o tipo de raiva, frustração e ódio contra as elites do poder. O toque revolucionário dos conflitos urbanos, a conflitos civis, vai uma linha divisória nem sempre clara por onde, do esclarecimento ao bom senso, logo transformam otimismo numa explosão alucinante em processos desvirtuados.

Entre 176 países do mundo, Portugal ocupa o 33º lugar na lista dos mais corruptos. Na Europa, a nível dos 27, ocupa a 13ª posição. Quem se recorda, já na ditadura, sempre foi boa prática efetivar gestão nociva, negócios suspeitos, tráfico de influências, aproveitamento de qualquer cargo, compadrio, formação e passagem de favores; índices, pois, bastante concorridos, ficando o 25 de Abril entalado a plano negativo o seu próprio futuro.

O problema cultural, a inércia praticada pela justiça ausente de quase todo o processo e o elemento do tal jeitinho muito português de empurrar com a barriga problemas da transparência de atos e factos/fatos; conduziu a nação ao cadafalso presente sofrendo uma crise sem igual, destruindo o fundamental da confiança do povo e da preservação do país, na sua imagem perante os demais.

Não que a corrupção seja um mal exclusivo da Lusitânia, ou a evidente discussão da moralidade católica falhando também na sua pedagogia cristã, mas toda uma espécie inerte de sucedâneos por onde se perderam na realidade certos valores que a democracia não poderá garantir, caso em cada cidadão este não acerte com o realismo da sincera chave do sucesso coletivo opondo valores sociais em primeiro lugar, contra essa desgraça tendenciosa que apoquenta a mentalidade humana desde a sua base.

A fragilidade do sistema democrático, nos últimos anos, estabeleceu grande maré de dúvidas no combate à corrupção, denunciando a ineficácia das autoridades judiciais que atinge 84%. Assim, o silêncio, que em democracia, tal como em ditadura; é o beneficiário da relação ética/confiança, a sinopse do tudo vale pelo anti-social, morte da cidadania e a destruição dessa esperança dentro do ideal da igualdade dos valores cívicos em cada sociedade responsável no seu contributo pelo mundo melhor.

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