O Operário da Democracia em tempo de ditadura

Por Veladimir Romano
Portugal, no mês de fevereiro, cumpre na sua história contra a ditadura fascista implementada por António de Oliveira Salazar; lembrança dos cinquenta anos sobre a figura do militar Humberto Delgado, sendo mais conhecido pelo apelido popular de “General sem medo”.

A coragem dum cidadão que saiu na linha frontal contra o ditador numa época negativa alicerçada pelo fascismo português. Nascia o desafio estruturado pelo general exigindo que o presidente do Conselho, abrisse à sociedade uma pugna de urna onde a democracia sentisse a sua utilidade, reencontrando o caminho da liberdade sem aplicar os ditames violentos habituais da circunstância anti-ditadura.

Funcionou, sim, a exigência do general; baralhando de forma determinante, totalmente estratégica a eleição democrática; contudo, usando então a ditadura do seu sistema regimentado de nomes já falecidos nas listas de suporte eleitoral ao ditador, chantagens e perseguição: a vitória embaraçou o regime; e o regime adulterou a escolha popular, deu na trama, vencendo a malandragem contra o operário da democracia.

Para não ser prisioneiro da sua própria coragem, Humberto Delgado, depois de brilhante carreira militar e política, onde acabou criando a TAP (Transportes Aéreos Portugueses), trabalhou na modernização dos aeroportos, foi percursor das primeiras rotas domésticas para regiões dos Açores, Madeira e África, junto com outro general que chegou a ministro do Ultramar e das Colônias: Henrique Galvão; todos governantes do regime, revoltados mais tarde com a traição de António Salazar. Alvoraçaram ideias reclamando abertura, liberdade e democracia.

Assassinado numa sexta feira 13 de fevereiro de 1965 na região espanhola andaluza junto a Badajoz, caindo numa cilada montada pela polícia secreta do regime, disfarçados de membros do Partido Comunista Português: a PIDE (Polícia Internacional em Defesa do Estado), falsos covardes, assassinam o general e a dedicada secretária: Arajaryr Campos, de origem brasileira, de maneira fria, barbaramente, abandonando os corpos como se fossem pedaços de lixo em laje de pequeno cemitério abandonado.

Lembro criança de como a notícia da sua “morte”, não só enchendo de tristeza quantos viram no “General sem medo”, uma noite de glória caminhando à liberdade, mas a desgraçada continuação duma imensa jornada de ditadura. O povo chorou, mirrou, gelou, submisso ao obscurantismo, nunca ficou capacitado de encontrar novas estratégias revolucionárias contra o domínio macabro do fascismo… continuando a existência dos dias cinzentos…

Assim, com absoluta justiça, meio século depois, o aeroporto de Lisboa, a velha Portela, finalmente na consciência política dos deputados da democracia, descobriram 40 anos depois do 25 de Abril, que havia uma falha na prestação duma homenagem séria devida ao grande homem: o general Humberto Delgado… o homem que nunca teve medo de António Salazar e do seu regime. Estava falhando no tempo da democracia contemporânea reconhecer o trabalho por demais evoluído de Humberto Delgado, personagem dedicado de corpo e alma pela aeronáutica, ser ele também o pai do transporte comercial lusitano. Humanista verdadeiro dono do seu ideal, ter marcado profundamente o sentido histórico da luta pela liberdade dos portugueses.

Hoje, o renovado aeroporto de Lisboa, vai ter o nome que bem pode orgulhar muitos portugueses e aqueles que amam a liberdade, embora igualmente sabemos que de fascistas a neo-fascistas, embrulhados no obscuro dos seus dias, não vão tolerar a ideia, porém e certamente ficando calados, recolhidos ao silêncio porque a hora é da democracia e por aquele que deu a sua própria vida… o “General sem medo”, ao Aeroporto Humberto Delegado, perpetuar infinitamente a recordação que andou falhando, é momento de júbilo para toda a comunidade de Língua portuguesa, onde quer eles estejam, Humberto Delgado, é uma obrigação!.

comentários