“Os bons, vão-se embora… os maus, ficam…”

Por Veladimir Romano
Uns quantos dias na diferença do tempo e, Portugal, perde figuras exemplares da sua cultura e um supremo conhecedor da economia. Depois da morte do grande poeta madeirense Herberto Helder; partiram Manoel de Oliveira, a maior entidade do cinema lusitano e mundial; enquanto umas horas adiante, também fazia a sua despedida física, o não menos (grande) economista: José da Silva Lopes (83anos).

Tanta surpresa desagradável junta, levando velhos amigos do maior humano, que o povo desabafando… foi dizendo: “os bons estão indo embora, enquanto os maus, vão ficando…”. Neste desagrado, fiquei escutando repetidamente da boca inclusive de anônimos, exclamando o acontecimento, embora natural, se entende das razões de tamanha configuração contra o reino da incompetência que domina hoje a sociedade em todas as áreas; realmente, por aqui, há um país estagnado, enterrado de novo na miséria, voltando aos anos da ditadura com níveis baixos de assistência social, caindo a saúde, complicações na educação, rebaixamento salarial, injustiças acompanhadas pela crescente onda de corrupção, falhando o primeiro reduto defensivo da democracia quando a justiça vive afogando na inteligência bizarra que usa, aplicando julgamento sem a noção dos crimes.

Com Manoel de Oliveira, o calendário andou, andou, andou, que a gente até se esqueceu que a existência física também tem limites e a morte quase havia desaparecido. Sim, não será para todos, infelizmente, viver e
resistir a tudo quanto de limitação ao prejuízo que as pessoas estão sofrendo; como serão capazes de aguentar tanto, vivendo assim mais tempo. Pois, com Manoel Oliveira (106anos), contestado por uns, glorificado por outros pela obra cinematográfica que deixa: da sua resistência e positivismo de vida, passou a referência inspiradora.

Para ele, o cinema foi tudo e, o quanto deixa de valor acrescentado, somente muito mais tarde no caminhar histórico, poderemos avaliar da riqueza, dignidade criativa sobre os apontamentos da vida portuguesa e da herança literária, fixada por ele na tela grande. Atravessou fronteiras mostrando pedaços importantes de Portugal, coisa pouco compreendida pelos conterrâneos, até fortemente criticada pela mediocridade dalguma baixa cultura de pensamento e ausência analítica. Porém, nada do mundo negativo português, algum dia o incomodou quando a sua missão foi fazer sempre aquilo que ele mais gostou: o cinema. É aqui que a Lusofonia deve prestar também a sua homenagem e respeito ao realizador que dedicou 90 anos da vida pela arte da imagem em movimento. Ele passou pelo cinema mudo, conheceu duas grandes guerras, a ditadura fascista, o conflito colonial, cinema colorido, até a era digital. Estava fazendo uma média de um filme por ano e projetos ficaram esperando, quem sabe, uma próxima vida.

Estamos em abril, mês que muito diz aos portugueses quando no dia 25, a ditadura e a guerra nas colônias parou. Os militares deram golpe fatal na filosofia de António de Oliveira Salazar, entregando à população uma via de opções por onde a novidade democrática se fez também vida. Com essa oportunidade nasceram vontades e na carreira esperançada nasceu muita atrapalhação, dúvidas, desencontros, formas multiplicadoras nem sempre boas de entender valores democráticos. As finanças, como fator principal, sempre foi o setor mais débil das políticas lusas; e, quando o fogo apertou nos ministérios, o bombeiro de serviço apareceu com sua mestria e eficácia, de nome José da Silva Lopes: o homem com o qual quantos chefes de governo puderam contar. Ele sabia resolver, embora nem sempre do agrado dalguns; no entanto, povo e o país, sempre estiveram em primeiro lugar.

A personalidade e caráter progressista do mestre, nunca atrapalhou o trabalho; sempre soube ser o personagem equilibrista, impoluto, realista, neutral quando tinha de ser; uma das suas lutas foi em favor da transparência dos números, tanto de clarividência que muito tempo antes já havia previsto a crise que depois chegou. Não faltaram avisos e, da sua enorme transparência, uma rara verdade nas palavras que muitos políticos nunca gostaram de escutar.

Do seu testamento ficou um pedido: que não trouxessem flores para o seu enterro, antes das flores, oferecessem donativos aos lares de crianças pobres que esta geração mais recente de políticos foi criando. Novamente, fazem no ouvido palavras do povo que na rua falando… vai que os bons, já se vão cansando de viver num mundo onde somente os maus parecem ser os donos da boiada…

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