Porto dos casais

por Petrônio Gonçalves

Petrônio Souza GonçalvesEla dançava, ele suspirava. Os olhos seguiam o balanço da bela menina, que percebia e delirava. Quanto mais dançava, mais ele olhava. Quanto mais olhava, mais ela dançava. As longas botas batiam no chão do salão e sapateavam em cima daquele pobre coração. Já noite finda, ele chegou, de mansinho, como um pescador que mira com o arpão afiado a pesca do dia. Depois de um boa noite rainha, disse que era marinheiro. Ela desdenhou: Um amor em cada porto, né! Ele sentiu, sorriu: Um amor para fazer cada porto alegre!

A parada seria dura, mas a beleza da guria valeria investidas repetidas, como foram todos os dias nas duas semanas que por ali ficaria, enquanto não voltava para o azul sem fim do mar.

Todo final de tarde ele a encontrava no trabalho, na rua da Praia, e iam caminhando pelas calçadas já tranqüilas ao doce anoitecer no centro histórico da bela Porto Alegre. Ela falava da vida, da ascendência germânica, da infância feliz no interior do Rio Grande do Sul, da educação rígida, enquanto o marinho, do nordeste, nascido na seca e criado no mar, se entregava. Ôxe, disse espontaneamente quando ela contou as palavras ditas pela mãe, em alemão, quando quebrou o dedo do pé, bem pequenina. Ela sorriu. No portão da casa velha, quase que de frente para o Guaíba, se despediam, enquanto ele buscava no ar um simples beijo. Depois voltava para a solidão inanimada do teto do quarto simples do hotel. O frio fazia vazios aqueles dias em Porto Alegre.

Quando ficou sabendo que um velho navio da companhia ali ancoraria, fez a maior festa, entre os convites para a bela guria e suas amigas. Queria ser o guia, acompanhar as meninas e mostrar todos os compartimentos da embarcação, dar a elas uma pequena sensação da aventura que é se jogar no mar sem saber quando e para onde ir e voltar. Ficou tudo acertado para domingo, dia de folga da tripulação. Ela ainda ponderou: você está de férias! Ele arrematou: é o meu presente!

Para a manhã de domingo, as meninas chegaram juntas, quando do alto, viram, lá em baixo, junto ao navio ancorado, o marinheiro todo de branco, fazendo jus ao distinto figurino. Ela se comoveu. Pensou: Era o dia de folga dele… Quando se encontraram, ele percebeu nos olhos dela, uma fagulha que ainda não vira. Algo havia de diferente naquele olhar. Passearam pelo navio, viram fotos do mar, de peixes, de ilhas, e viajaram, enquanto no balanço da pequena embarcação, o coração dela pulava. Ali, ela se entregou. Nos dias seguintes, o marinheiro, todo de branco, nadou, afogou e mergulhou fundo no azul dos olhos da bela guria, enquanto ela escrevia uma nova história no branco da farda do gentil marinheiro.

Uma dia, partiu. Ela foi ao Porto dar-lhe um último adeus. Era o aceno da saudade. Ele sabia que aquele porto nunca mais seria o mesmo depois daquela estada. Seria agora, mais alegre, com uma doce lembrança soprada pelo frescor da brisa sem mar…

 

Petrônio Souza Gonçalves é jornalista e escritor

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