Pra frente, Brasil.

Por Mauro Andrade Moura

 

Havia pouco terminado a Copa de 70, no México, sendo a Seleção Brasileira tri-campeã invicta, a melhor seleção de futebol de todos os tempos e cada um dos jogadores futebolistas está presente em minha memória como heróis da minha infância.

 

Cantávamos pra frente, Brasil com muita emoção, era a marcha nacional para a Copa de 70.

 

Era inverno, Itabira sempre fria e envolta em neblina, o sol subia no horizonte um pouco mais tarde e todos em casa de meus avôs dormiam sossegadamente, aproveitando um pouco mais do quentinho do cobertor.

 

Brincava eu com os caminhõezinhos, sozinho, bateram na porta da rua. Minha Mãe havia me ensinado a ver a hora no relógio de parede da sala, era um carrilhão e o cuco colocara-se para fora cantando seis vezes.

 

Ao abrir a porta da casa, estava escuro ainda, deparei-me com um punhado de homens, consegui perceber os capacetes que usavam e as grandes espingardas (fuzis) que traziam empunhadas, perguntaram sobre o meu Pai, pedi que aguardassem e fui chamá-lo.

 

Meu Pai perguntou-me quem era, disse que era um “monte” de homens com capacete e ele vestiu-se foi à porta atendê-los. Dali mesmo já entrou em um dos dois jeeps oliva e só retornou no final do dia.

 

Somente muitos anos depois, já na juventude, em conversa com o meu Pai é que fui entender a situação dele, havia sido detido por um capitão do exército; aquele mesmo exército que promoveu a maior barricada da nossa história para tomar conta do poder e de “nós todos”.

 

Tomaram conta de tudo, diziam que era para acabar com a corrupção, com a fome e as nossas mazelas cotidianas.

 

Acabaram sim, mas foi com a esperança de muitos, trucidaram outros tantos, desapareceram com uns outros, tudo em nome da “ordem e do progresso”. Adotaram alguns pseudo-empresários, que assim sendo, estes tiveram a oportunidade de locupletar do poder ditatorial e embolsar não sei quantos bilhões de dólares. Sem contar os diretores das empresas estatais que as tinham como suas e o aproveitamento era de cem por cento para a poupança familiar.

 

Agora, passado estes 50 anos da barricada miliciana, ainda com uma democracia juvenil e, obviamente, em fase de aprimoramento, temos de aturar o desplante diário de ler nas manchetes dos jornais a respeito da corrupção que, como dantes, apresenta-se como endêmica em nossa jovem nação.

 

Passados todos estes anos, após acompanhar meu Pai em várias jornadas para que não tivéssemos de passar mais o desgosto de perceber, ler, vivenciar estas notícias da usura do dinheiro público, fica o ressentimento da desilusão de a todo o momento surgir mais uma triste manchete desta.

 

Como sou míope, as pequenas faltas (pode ser falcatrua) já não as enxergo mais. Mas estas tristes notícias batem a todo o momento em nossas frontes. É um pedido escabroso à câmara municipal de vereadores, um contrato de valor vultoso e prazo curto na prefeitura municipal, benesses na assembléia estadual, demissão em massa no governo estadual por falta de promover um concurso público, um congresso federal pernicioso e fisiológico, além de um governo federal perdulário, que parece já não saber fazer contas e respeitar o mais humilde cidadão e contribuinte em sua necessidade mais básica pela simples falta de recursos à saúde pública e educação básica.

 

No dia 1º de Abril de 1974, era o próprio dia da mentira, meu Pai foi solto do DOPS do Rio de Janeiro após sete dias preso em uma solitária e incomunicável sob a acusação de perturbar a ordem pública na porta da mineradora Vale do Rio Doce – CVRD. Estava ele cobrando de um diretor  daquela antiga empresa estatal a execução de um contrato de fornecimento de transporte ferroviário, sendo que esta mineradora ainda é uma concessionária pública de transporte ferroviário. Esclarecendo que aquele diretor, em tempos de ditadura militar, era um tal de marechal Lindemberg, o qual tomou uma esfregada do contrato na “cara” .

Este contrato, por força da ditadura, apesar de assinado pelas partes, nunca entrou em vigor.

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