Rescaldo Final do COP22 e o Momento Mujica

Por Veladimir Romano

“Falar dos problemas ambientais é um ato contínuo sem data no calendário e, com a máxima urgência todos nós nos temos de envolver sem ficar na fila de espera das cúpulas…”! Uma das frases de Pepe Mujica. Tinha pois que ficar no fim alguma análise, muita ponderação sobre o dito, discutido e, mais ainda dos compromissos amarrados na agenda de Marrocos ou de Marraquexe, como tal determinismo, existência objetiva, ato também ele com nível voluntário junto à liberdade moral identificada com posições indo ao encontro da conduta inteligente que agora se pede: reflexões sem demagogia, copiar exemplos positivos, deixar cair arrogâncias dominantes, combater negligências.

No pavilhão da “Zona Verde”, o convidado ex presidente Pepe Mujica, na sua ampla simplicidade, em boa hora convidado de honra da secretaria para o Ambiente das Nações Unidas, a par de outros/as, de forma clara, falando com sabedoria conhecida, pedagógica e culta; explicou das razões porque foi legalizado no Uruguai o uso da “maconha” como fator ecológico, enquanto juntava várias incursões entre problemas ambientais como resultado do crescimento das regiões urbanas e a desvalorização da vida rural, ao impacto negativo das aplicações do jeito mais capitalizado pela necessidade cíclica do crescimento onde apenas ganham bancos, empresas e altas taxas aplicadas sobre salários e lucro empresarial pelos regimes governantes numa exigência sem cabimento.

Tudo parece ser de aplicação útil, mas tal como a experiência vem demonstrando, na constante fome especuladora em busca do capital sem limites, nada consegue responder às primeiras necessidades. Ora, este sistema anda acabando com tudo no planeta, ficou sem raciocínio, perdeu capacidades, afunila a vida daqueles que sendo a maioria dos pagantes na fazenda, são igualmente os menos favorecidos e protegidos.

A Imprensa, igualmente não escapa sem entender o seu défice mesmo tendo na frente debates livres, abertos, alguns coincidentes, mas “dopados” pela maioria dessa Imprensa, desdenhosamente salvando etiquetas redatoriais onde não se conseguem ocultar inclinações comprometidas pela política de certos jornalistas passando por cima da presença de algumas personagens fidalgas, onde também se falou do efeito corrupção nas contas do Ambiente. José “Pepe” Mujica, referindo da sua experiência política e guerrilheira, depois a ação social; documentou essa participação breve mas muito apreciada e aplaudida.

Dos holandeses da DutchTec, lançaram projeto: “Pikallar”, sendo do lado marroquino o responsável Abdel Alif, partilha de bicicletas com as primeiras 12 oferecidas a uma centena, deixando Marraquexe (5ª cidade mais poluída do planeta) ser a primeira cidade do norte africano com parque de mobilidade ecológica, aos suecos da Ericsson, apresentando aparelhagem que reduzirão emissões de CO2 a 15% até 2033; será o equivalente a 3 bilhões de toneladas correspondente à quantidade anunciada que representa toda a combinação das emissões conjuntas da Europa mais EUA. Estes mesmos suecos ainda apresentaram veículos movidos a energia solar.

A CPLP, também marcou presença através de ONGs e governantes, como Angola, mandando a própria ministra do Ambiente: Fátima Jardim, dirigindo delegação juntamente com a secretaria da Energia; do Brasil, a participação do Instituto Global Attitude, teve a sua intervenção com Felipe Toledo, da Diplomacia Civil, falando da sociedade brasileira e a relação com mudança climática. No mesmo formato entraram africanos, árabes e, da Europa, alemães, italianos, pela questão sustentável, trazendo os alemães da Deutsches Institut für Entwicklungspolitik, equivalente ao Instituto do Desenvolvimento Alemão, através do representante: Pauw Pieter, focando África como potência onde o setor privado precisa aplicar adaptações e corrigir ações.

Bom referir que além de sugestões diversas apresentadas por Portugal, ficámos sabendo de 13 milhões de euros acelerados na requalificação ambiental favorecendo o bonito, romântico, histórico e ligeiro rio Tejo. No total serão 31 milhões também na descontaminação dos solos, antigos territórios industriais com forte impacto nas águas e a colateral destruição da vida marinha. Hoje, quase não restam peixes neste rio repleto de histórias e protagonista de livros. Ainda a ministra lusa:Ana Paula Vitorino, anuncio na sua intervenção, orçamento de 508 milhões de euros com apoio da União Europeia no programa Mar 2020, do Plano Estratégico Europeu cuidando o futuro dos oceanos.

No mesmo painel, ainda figurou outra intervenção brasileira (aliás, muito ativa ao longo da cúpula) da “Verdeluz” com Dominique Souris, falando de ambições direcionadas em colaboração com a juventude, ações programadas até 2020 no tema das florestas, degradação das terras de cultivo e sobre a água.

Não podiam faltar japoneses. espanhóis, norte-americanos; mas o Brasil reaparecendo novamente através de Laura Maria, do Observatório do Clima, identificando como a sociedade civil está ajudando na forma do comportamento social em relação ao clima no território brasileiro… depois veio a Tunísia explicar como criou “sentinelas” para vigiar suas ricas zonas húmidas/umidas e assim criou o governo recente o movimento: “Sentinelas da Sociedade Civil para o Magrebe”.

Numa pausa, lembrei do grande poeta Guerra Junqueiro e do seu poema “Parasitas”, quando ele escreve… “No meio duma feira, uns poucos de palhaços
andavam a mostrar, em cima dum jumento,
um aborto infeliz, sem mãos, sem pés, sem braços,
aborto que lhes dava um grande rendimento…”

[ Rescaldo incompleto, muito ainda fica por relatar, porém com a certeza de o mundo haver ficado mais consciente onde 194 países retificaram acordos assumindo responsabilidade. Resta agora saber se será cada obrigação próxima fronteira ou valor acrescentado. Valeu, Marraquexe! ]

Ficámos pensando e, de repente, lembrei na quadra do famoso vate lusitano, equiparando-se ao planeta numa abordagem virtual quando todos sabemos a relevância da situação exigente à qual o clima na sua imparável caminhada tem mudado de tempos a tempos; contudo, com a chegada da era moderna, da forma escolhida preparando crescimento às custas de sistemas financeiros onde a força dominante se fez marcar como opção única levando na base contornos obsessivamente entrando com mercados especuladores e bolsistas com acionistas desesperados procurando e se preocupando unicamente em subir fasquias monetárias, pela certeza inglória um dia comerão no almoço cinzas e ao jantar restos dessa mesma matéria. Será quando acreditarão que efetivamente o planeta deixou de ser azul, vítima da fome capitalista mergulhada que anda convidando a sociedade na sua devassidão consumista e consumidora.

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