“Se Todos Fossem Iguais a Você”

Por Veladimir Romano

Realmente, se houve cidadão que soube colocar bem o seu lugar na vida e vive-la intensamente, realçando bom gosto, emoção e muita simplicidade; criador marcante de várias épocas, sinalizando gerações, incomodando ditaduras, desconsolando diplomacias, apaixonado do verbo feminino, personagem que até soube respeitar a estupidez alheia. Só podia ser mesmo Vinicius de Moraes, nascido em outubro, dia 19, decorria o ano de 1913, enquanto o governo brasileiro da época do presidente Venceslau Brás, (Partido Republicano Mineiro), declarava guerra na Alemanha.

Assim, o mundo das Artes, o Brasil, a Lusofonia e o planeta das mulheres, comemoram esse meganascimento de cem anos do generoso inventor e reciclador do samba, de letras inesquecíveis como: “Águas de Março”, “Tarde em Itapuã”, “Samba do Café”, “Pra quê Chorar”. Será proibido não dizer que o infinito seria o limite em Vinicius de Moraes… ficaremos na dúvida desse limite; pois, “Garota de Ipanema”, “Insensatez”, “Berimbau”, “Canto de Iemanjá”, “Eu Sei que Vou te Amar”, “Chega de Saudade”, “Água de Beber”; saltaram a fronteira do impossível, levando a saudação de um povo dotado de musicalidade, suma inteligência, mais ainda: da sua essencial espiritualidade.

Não ficaram indiferentes artistas, cantores, músicos de outros cantos do planeta, como Nat King Cole, Peggy Lee; a rainha do jazz: Ella Fitzgerald ou a orquestra de Henri Mancini e na voz de Frank Sinatra, até esse mesmo infinito, foram alcançados uma merecida homenagem, valor reconhecido da estrada patrimonial que hoje o Brasil, acima de tudo, reserva.
Não viajou pela vida só enamorado pela música, sendo o teatro, peças infantis, ensaios, ficção, a própria poesia… tão feito um “homem plural”, como frisou certa vez Stanislaw Ponte Preta… ou depois como ainda referenciou Carlos Drummond de Andrade, ser Vinicius… “o único poeta brasileiro que viveu como poeta”. Aqui, o serviço diplomático perdeu e a carreira deu lugar ao sonhador, cavalheiro, artilheiro da palavra, conquistando primeiro o Brasil; depois, outros palcos do mundo.

O nosso poeta, nasceu numa época rica de personagens como Fernando Pessoa, Luís de Freitas Branco, Mário de Andrade, Pixinguinha, Dorival Caymmi, Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, Edmundo Ros, Xavier Cugat, Glenn Miller, Duke Ellington, Carlos Gardel, Benny Goodman, Count Basie, Leonard Bernstein, Pau Casals, Frank Pourcel; entre mais alguns, criaturas que deram trato na melancolia mundial.

Restantes parcerias, imensas, manifestam o irrequieto e trabalhador em Vinicius de Moraes, tal número, evidenciando também a sua sofisticada formação académica, passando pela legendária Universidade de Oxford; andarilho do mundo com várias residências desde Los Angeles, passando por Paris até Montevideu. Carreira diplomática que foi parar nos quiabos, quando o poeta compreendeu o seu caminho… esse, era outro, com Baden Powell, Toquinho, Ary Barroso, Edu Lobo, Chico Buarque, Pixinguinha, Bacalov, Capiba. Feita igualmente de gente intelectual no exterior como Georges Moustakis, Ian Guest, Sergio Endrigo, Francis Hime, Ernst Nahle, grupo Tapajós… uma coisa só, a ordem foi sempre… ir fazendo!

Com Tom Jobim, a história muda totalmente quando se conhecem pelos anos 50. Rio de Janeiro de 1956, com Tom atingindo seus 29 anos, Vinicius frequentando os 43; se juntam e começa o acasalamento do Bossa-Jazz, a chave da consagração mundial, recolhendo outras menormente divulgadas… “Rosa de Hiroxima”, “Canção de Enganar Tristeza”, “Meu Pai Oxalá”, “Linda Baiana”; mais de três centenas de composições, muitos inéditos dormidos na gaveta, outros inacabados, tarefas de um mundo só, a surpreendente bagagem deixado pelo enciclopédico talento do poeta carioca que um dia falou ser ele o “branco mais preto do Brasil”.

Marília Medalha, foi a única (tinha de ter mulher na composição) feminina com quem Vinicius de Moraes partilhou criação musical e poética, entre uma dezena, alguns sucessos como “Ausência”, “Moinho d´Água”. As outras, paixões incontroladas de quem amou a vida na plenitude do ato, casando nove vezes, deu tempo para escrever o famoso: “Soneto da Fidelidade”… certamente ao amor, por tanto amar.

Na época do presidente Juscelino Kubitschek, Vinicius e Tom, são convidados a Brasília, apelo feito para a preparação duma obra sinfônica apropriada à nova ocasião; daqui nasce uma espantosa parceria em “Sinfonia da Alvorada”. De novo no Rio, com a famosa “comidinha de bêbado” (irresistível garrafinha de uísque), debaixo do braço, torram horas procurando pelas noites de Ipanema, novas inspirações.

Desde o “Operário em Construção”, até chegar ao teatro com “Orfeu da Conceição”, um musical (Orfeu Negro, fonte inspiradora nas leituras de Barack Obama, quando deu no poema: “A Origem dos meus Sonhos”), mais tarde ao realizador francês (de origem russa) Sacha Gordine, que mudou a peça para cinema; chegando nova consagração com primeiro prêmio no Festival de Cannes e em Hollywood, o Oscar para melhor filme estrangeiro.

Muito bem: depois de toda uma viagem de vida que durou quase 70 anos, o nível, a dedicação, os trilhos desenhados, as paixões, a criação, a frontalidade e a transparência existencial do cidadão que ultrapassa fronteiras, merece que transformemos seu samba-canção: “Se Todos Fossem Iguais a Você”, realmente como ele foi, a primeira espécie do nosso hino mais amado e, de certeza, o mundo será totalmente livre e feliz.

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