TRÁGICA SÍRIA

Por Veladimir Romano

Fazendo caso dos políticos e, como diz o povo em certas circunstâncias: palavras vão com o vento quando estes prometem tanto, tanto, depois, para servir interesses, vergam a dignidade e até mercantilizam o caráter. Não fosse o bom senso na lógica da proposta russa, o sangue estaria dobrando no chão das calçadas e praças da trágica Síria.

Não admira, passado algum tempo, frustrações cheguem em diferentes formatos nas primeiras imagens, acreditando em Dilma Rousseff, Cristina Kirchner, François Hollande e agora, Barack Obama; estampas urgentes das capas da imprensa mundial, pela experiência, vão deixando um péssimo sabor daquilo que poderiam ter feito para melhorar o nosso mundo; ao invés, mostram vazios de liderança arrepiantes.

Faltava uma tragédia qualquer, fosse onde fosse, tinha de sair da cartola uma guerra ou várias, quanto mais, melhor, alimentando o espírito suíno dos ruminantes predadores das bolsas financeiras na especulação dos negócios petrolíferos, aproveitando desgraças alheias, enchendo segredos do ego materialista. Basta ver como a recente resolução efetuada pela Assembleia Geral da ONU, esqueceu por completo as principais vítimas do conflito.

Nada servindo ameaças, muita sintaxe carregada do cinismo habitual, marcando as últimas semanas enquanto pela nação síria vão morrendo criaturas inocentes (sacrificados crônicos da teimosia do baixo sentido humano); das Nações Unidas, acordando a medo, tímida perante factos/fatos, nunca sabendo muito bem o que fazer nem sempre acreditando ter a melhor das soluções para problemas desta dimensão, adiantam decisões enquanto se proclama através do discurso, habituais vocábulos de ocasião, certinhos, mas em nada eficazes.

Mau grado, a louca demolição continua, com novos episódios dando lugar à utilização de produtos mortíferos com base em armas químicas (há 15 anos a Síria não assinou o tratado em virtude de Israel não desejar manifestar o seu depósito de armas químicas. Aliás, a Síria apresentou proposta, inclusivamente fosse feita a destruição de todas elas). Tarde ou cedo, pelo caminhar da situação, com tanto artista desmiolado, tinha esta desgraça insanável cair no palco mais agitado do mundo.

Damasco, uma das capitais mais antigas do planeta, vem do Terceiro Milénio antes de Cristo, das civilizações dos Ebla, conquistada por Alexandre, nunca deixando suas raízes onde arameus e assírios, desenvolveram a moderna República parlamentar, laica, com 18 partidos em coligações compondo a orientação política desta nação árabe, muçulmana, multiétnica, também de forte ligação aos antigos comerciantes cartagineses (por isso mantém afinidades ao Líbano), navegantes do mar Mediterrâneo, fundadores da Tunísia. Dum passado (mais recente) conturbado de colonialismo francês, britânico, otomano e alguns golpes militares com ditaduras pelo meio; só entrou na estabilidade e progresso social quando o pai (Hafez al-Assad) deste agora contestado presidente… apaziguando o país, criando forças e organização interna; por algumas gerações eliminou separatismos, separatistas, fanáticos religiosos anti-minorias, apoiando e respeitando, inclusivamente, a comunidade cristã.

Contudo, sofrendo desde o início de 2011, de contingências várias, desafios descontrolados da violência daqueles que desejam ganhar poder pela força, querendo implementar integralismo islâmico, dando continuidade ao ciclo da “Primavera Árabe”, vai vendo toda uma riqueza histórica destruída, mais de 140 mil vítimas mortais, 6,5 milhões de deslocados, 2 milhões de refugiados, um brutal prejuízo econômico ainda não contabilizado.

Certo, uma demência nunca chega só; norte-americanos, como sempre, já tardavam entrar no palco das atividades conflituosas, colocando no horizonte necessariamente mais confusão, alimentando deste modo suas fábricas de armamento. Os conflitos do Iraque e Afeganistão, deram a esta indústria um lucro de 25 milhões de dólares semanais.

Num total lucrativo ao longo dos anos que atingiu 4 trilhões de dólares. Para esta guerra, segundo a própria Imprensa norte-americana, ficou calculado que as empresas lucrariam perto de 50 milhões de dólares semanais. No meio de tanta conversa, contudo, nem responsáveis da ONU, Direitos Humanos, União Europeia, USA, Rússia, Japão; entre outras de prestígio, como não perguntaram ainda sobre a venda dessas mesmas armas químicas. Realmente, quem vende toda essa matéria destrutiva e assassina? Quantos países guardam armas venenosas? Quem fabrica tamanha monstruosidade? No passado bem recente, Hitler também fabricou, porém, era Nazi e contra a raça humana; quem são os cientistas cobardes e submissos? Serviço diabólico!

Desta grossa chamusca ninguém mais respeita doentes (os hospitais estão sem resposta, esgotados, sem medicamentos), população idosa ou 2500 crianças abandonando diariamente suas casas (o apoio humanitário chegou no limite; o pão aumentou 10 vezes, tem regiões onde já nem alimento existe). Alepo, patrimônio UNESCO, ficou em cacos depois de 30 séculos contando histórias das civilizações, povos ancestrais do Oriente Médio; enquanto cada dia, populações e a Síria vão amassando na tragédia.

Por nada chega o entendimento, o senhor da Casa Branca, laureado com Prêmio Nobel da Paz (2009), cantando a quatro ventos, prometendo guerra num território que o mais distraído dos leitores vaticina negativo, com povos gritando um claro “NÃO!”; persistente obscurantismo ou prazer suicida causando apenas mais destruição? Servindo vontades a interesseiros bélicos? Será que a indústria esqueceu Israel?

Europeus e americanos vão-se perdendo na lenga-lenga dos “Direitos Humanos” favorecendo o jogo dos oposicionistas, juntando peças, acumulam no sujo deste fanatismo islâmico, portas, janelas e caminhos escancarados numa tragédia que poderá durar mais tempo do que os especialistas julgam; daqueles que políticos, faraós, rainhas e presidentes, pelo fundo da alma, humanamente, não vão apreciar.

Como disse o representante das Relações Exteriores do Iraque, Ali al-Musawi: “É um absurdo bombardear um país, para ajudar um povo”; por outra parte, a comunidade internacional vai-se esquecendo das estratégias silenciosas desenvolvidas nestas e noutras ocasiões pelo sinistro Clube Bilderberg, canais macabros da forte influência internacional… alguns adicionais a ter em conta.

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