Um presente do céu

 O câncer não é solidário. Tem uma estranha missão de devastar vidas, separar amores, corroer homens e mulheres, meninos e meninas, por dentro. Em sua sanha, não conhece fronteiras, não respeita sonhos, ignora o belo. Segue, impávido e colossal, rasgando a vida, de um extremo a outro.

Na ala de tratamento do câncer da Santa Casa de Belo Horizonte, uma paciente admirava o ir e vir das belas e inocentes crianças pelos corredores do hospital, com uma indignação silenciosa e doída. Perguntava a Deus, ao nada, ao além, o porquê de tão triste sorte. Falava sozinha, sabendo ser mais uma entre tantos. Pedia por um momento de paz, um sinal de vida, um sopro de esperança, quando a chuva caía lá fora, molhando os sonhos que ela não nutria mais. Era final de ano, véspera de Natal, e ela pedia por um presente que sabia não ganhar. Chorou por ela, pelas crianças que, aleias a tudo, brincavam a sua volta.

Obstinada, começou a cultivar dentro de si o espírito do verdadeiro Natal, a celebração da vida, o acolhimento ao sagrado, a comemoração do sonho que virá. Saía, em seus intervalos do tratamento, a coletar presentes pela cidade. Depois de muito colhido, pensou no sonho repartido, quando ganhou uma roupa de Papai Noel bem menor que sua grande estatura. Se pôs a vestir, a amarrar aqui, ali, e saiu pelos corredores do hospital distribuído carinho, abraços, esperança, alegrias e presentes. Ao encontrar um menino pelo corredor, recebeu dele um abraço apertado, demorador, sereno e quente. Se pôs a chorar, quando o menino lhe puxou a barba revelando o rosto de mulher. O meninozinho sorriu, abraçou de novo o Papai Noel, e chorou a dor que não era só dele. O Papai Noel perguntou para o menino de cabeça raspada e corpo franzino se ele havia gostado do presente: um caminhãozinho usado e arranhado pelo tempo. Ela passou o carrinho por sobre a cabeça do Papai Noel e falou: Gostei sim, mas gostei mais foi do abraço… O Papai Noel caiu em choro compulsivo, quando voltou a abraçar o meninozinho que se transformou em um destemido guerreiro. Ao tocar o braço do Papai Noel, o menino descobriu o cateter escondido. Levantou o braço e puxou o Papai Noel pelos corredores do hospital até chegar a um altar de orações. Ele se ajoelhou, puxou o Papai Noel pela mão, que se ajoelhou, e começou a dialogar com Deus: Papai do Céu, como o Senhor pode fazer isso com o Papai Noel?! Ele não pode ficar doente não, ele tem muita coisa para fazer no mundo. Por favor Papai do Céu, cura o Papai Noel para mim, porque o mundo precisa muito dele e ele não pode ficar assim não, ele é muito bonzinho para sofrer… O Papai Noel abraçou o meninozinho mirando o Papai do Céu, pedindo, em silêncio, um presente de Deus para ele e para todas as crianças do mundo. Foi um momento da mais profunda e verdadeira paz.

No ano seguinte o Papai Noel fez o mesmo ritual, agora com a ajuda de muitos. Ao chegar à porta do quarto do menino, percebeu o que não foi preciso perguntar: o Papai do Céu havia levado para seu lado um valente guerreiro que se tornou um anjo, e todas as noites ele vaga pelo céu das grandes esperanças.

Petrônio Souza Gonçalves é jornalista e escritor 

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