Um viaduto no meio do caminho

Toda cidade é um museu a céu aberto, um rosário de lembranças em contas de cada esquina. Algumas, pelo descaso de seus governantes e a omissão de seus cidadãos, um rosário de tristezas e decepções. Outras, uma exaltação diária à história e à memória daqueles que a construíram e a mantém de pé. Belo Horizonte, que nasceu como uma cidade projetada, não tem uma raiz natural de seus primeiros habitantes, seus primeiros anos. Mas tem monumentos erguidos com a lembrança de quem começou a conviver com a cidade e construiu uma relação de amor com ela. Suas ruas que cruzam e descruzam em todos os sentidos, são testemunhas desses encontros, além do tempo.

Símbolo da capital mineira e referência de sua arquitetura, o Viaduto de Santa Tereza talvez seja o monumento mais representativo, entre todos. Três gerações passaram pelos seus arcos, as melhores que um país pode ter. A primeira foi a de Carlos Drummond de Andrade e o lendário grupo Estrela, formado também por Emílio Moura, Pedro Nava, Gustavo Capanema e Milton Campos, que do alto do viaduto assistia o sol nascer ao longe, com seus raios escorrendo a poesia urbana pelas ruas da capital de todos os mineiros. Drummond morava na Floresta, na Rua Silva Jardim, e o viaduto era uma pedra no meio do seu caminho, uma pedra preciosa, onde ele se sentava e divagava sobre as coisas deste e do outro mundo. Imagino que muito de seus versos nasceram ali, distraidamente.

Depois, veio a turma de Fernando Sabino com seus profetas do apocalipse, Otto Lara Resende, Hélio Pellegrino e Paulo Mendes Campos, que do Viaduto mirava o infinito e via o futuro com suas previsões improváveis. Fernando fazia questão de destacar em suas entrevistas os feitos de sua geração ao escalar o umbral do Viaduto de Santa Tereza.

Poucos anos depois, veio a turma de Lô Borges e do Clube da Esquina, que depois de algumas incursões na noite belorizontina do centro, voltava para Santa Tereza, inspirados pelos arcos suspenso no universo aberto, para fazer história cantando em suas esquinas a canção que agora é de todos nós.

Hoje, olho para o Viaduto de Santa Tereza e vejo ‘seu fantasma desolado’ no horizonte alquebrado da capital mineira. Onde havia poesia, há apenas sustos e assaltos. Onde havia música, hoje há buzinas e desilusão. Onde havia uma visão de mundo e divagações, hoje há apenas tapumes e a certeza do que não existe mais. Lá em baixo, como silenciosa testemunha de nosso tempo, onde passava um rio, escorre apenas o lixo humano produzido no silêncio de nosso lar.

Como uma crua e dura paródia moderna, o Viaduto histórico e cultural tem hoje um sistema de iluminação improvisado, dentro de seu esqueleto exposto com todas as suas chagas, uma vergonha urbana e humana para todos nós. Não tem mais poesia, não tem mais música, e nenhum ‘auto passará sobre seu cadáver’, enquanto nós, com nossa omissão diária, velamos, todos os dias, seu corpo insepulto na nossa pobre tarde vazia.

Petrônio Souza Gonçalves é jornalista e escritor

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