Ventos da história

 

Era a tarde de um sábado do mês de agosto do distante ano de 1976, exatamente uma semana antes da morte do ex-presidente Juscelino Kubitschek de Oliveira, quando saiu na imprensa e nos corredores do poder o boato da morte de JK. Juscelino estava com a família em sua fazendinha, em Luziânia, incomunicável, nos arredores de Brasília, vivendo seu exílio consentido, e sua amiga de todas as horas Vera Brant – irmã mais velha de meu saudoso amigo e inconfidente pós-moderno Celso Brant – sabia disso. Anos depois, ela me contou essa história, por telefone, e ainda se emocionava, muito. Abalada, Vera Brant pegou o carro com seu motorista particular, já à noite, e foi até a fazendinha encontrar com Juscelino, quando contou ao presidente a péssima nova que pairava no céu do Brasil. O ex-presidente e toda a família ficaram assustados e chocados com a notícia e com o episódio em que se viram envolvidos.

Durante a tarde daquele fatídico sábado, o telefone da casa da Vera não parou mais de tocar. Gente do Brasil inteiro ligando, amigos dela, do ex-presidente, gente do exterior, familiares, jornalistas de toda parte do mundo. O boato se avolumava e as ligações aumentavam. O clima era de angústia, consternação, constrangimento, insegurança e sofrimento. E aquela dúvida cruel pairando no ar. A notícia foi viralizada no final de semana, estrategicamente, quando muitos dos jornais já tinham fechado suas edições e as autoridades afastadas de suas funções rotineiras, pois o país se encontrava ‘desarmado’, em clima de final de semana, o que demoraria para desmentir o boato e reforçaria a dúvida, diante de um não esclarecimento imediato do fato. Tudo isso se somaria a um recall da notícia no início da semana, quanto todos retornariam aos seus postos, repercutindo ainda mais o fato natimorto.

Já era meia noite, quando Vera e Juscelino se sentaram na varanda da fazendinha de JK e miraram o horizonte infindo do país que eles não reconheciam mais. O Brasil moderno de Juscelino se sucumbira, desfigurado, em um silencioso luto. Juscelino, abatido, virou-se para sua dileta amiga de infância e como que se conversassem sentados nas calçadas de sua Diamantina eterna, falou, com seus olhos banhados em sonhos e esperança:

“O que você acha que aconteceu para espalharem esse boato de forma tão violenta?”. Vera Brant matou a charada e respondeu: “Quer saber mesmo o que eu penso? Acho que fizeram um teste para verificar se haveria uma comoção no país se matassem você. Não houve porque eu não deixei que a notícia fosse para as rádios e as televisões. O pior de tudo é que eles vão pensar que ninguém se incomodou e, não sei não, estou preocupada”. Juscelino ponderou: “Eu hoje estou convencido que serei muito mais útil ao meu país morto, do que vivo. Comigo vivo, eles não vão abrir nenhuma fresta”.

O tempo passa, mas o modus operandi de quem manipula o poder continua o mesmo.

Petrônio Souza Gonçalves, é jornalista e escritor

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