Polícia Federal indicia irmã de Aécio Neves por obstrução da Justiça


Segundo as investigações, irmã de Aécio Neves se aproveitava de informações para impedir ou embaraçar investigações de organizações criminosas; defesa dela disse que vê indiciamento com “perplexidade”. Outras 5 pessoas também foram indiciadas.

Polícia Federal concluiu o inquérito da Operação Escobar nesta quarta-feira (10) e indiciou a irmã do deputado federal Aécio Neves (PSDB-MG), Andrea Neves, dois escrivães da corporação, dois advogados e um empresário por crimes como corrupção passiva, organização criminosa e obstrução de Justiça. (Veja detalhes abaixo)

Ainda caberá ao Ministério Público definir se abre ou não denúncia contra os indiciados. Caso eles sejam denunciados, a Justiça deverá decidir se aceita ou não a denúncia e os torna réus. Só depois disso que eles poderão ser julgados. As provas contra os servidores da PF foram encaminhadas à Corregedoria Regional da corporação em Minas.

Segundo o inquérito da PF, relatado pelo delegado Rodrigo Morais Fernandes, o empresário Pedro Lourenço recebia informações sigilosas de investigações da corporação a partir de conversas com o advogado Ildeu da Cunha Pereira, que morreu em fevereiro deste ano.

Andrea recebia documentos da corporação obtidos pelo advogado Carlos Alberto Arges, também segundo a investigação. Os vazamentos ocorriam através dos escrivães Márcio Antônio Marra e Paulo Bessa.

De posse dessas informações sigilosas, Andrea e Lourenço se beneficiavam, impedindo ou embaraçando investigações relacionadas a organizações criminosas em que estavam envolvidos ou nas quais tinham interesse direto, segundo o inquérito da PF.

O G1 entrou em contato com Andrea Neves e, por meio de seu advogado, ela disse que “manifesta a sua perplexidade com a finalização precipitada da investigação feita pela autoridade policial que contraria, inclusive, as provas obtidas no próprio inquérito”. Pedro Lourenço disse que não foi comunicado oficialmente sobre o indiciamento. (Leia mais ao final da reportagem)

O G1 também entrou em contato com Carlos Alberto Arges, mas não havia obtido retorno até por volta de 10h50. O G1 ainda tenta contato com os escrivães Márcio Antônio Marra e Paulo Bessa.

Documentos sigilosos na casa de Andrea

Ildeu, Arges, Marra e Bessa chegaram a ser presos em 2019 durante a deflagração da operação ‘Escobar’, que apurava justamente o vazamento de informações de inquéritos da PF. Na ocasião, Andrea Neves ainda não era investigada, mas precisou prestar depoimento na condição de testemunha.

A PF havia descoberto os vazamentos ao encontrar documentos sigilosos de investigações na casa de Andrea, ao cumprir mandados de busca e apreensão em outra operação, em dezembro de 2018. As documentações não estavam assinadas e nem numeradas, o que, segundo o inquérito, significa que os arquivos foram extraídos a partir do sistema interno da polícia.

“AS INFORMAÇÕES OBTIDAS FORAM UTILIZADAS PARA EMBARAÇAR INVESTIGAÇÕES QUE ENVOLVEM ORGANIZAÇÕES CRIMINOSAS E PARA CAPTAÇÃO DE CLIENTES POR PARTE DOS ADVOGADOS, EIS QUE O CONHECIMENTO PRIVILEGIADO DEMONSTRAVA FORTE INFLUÊNCIA NO ÂMBITO DA POLÍCIA FEDERAL DE MINAS GERAIS”, DIZ TRECHO DO INQUÉRITO.

A partir dos celulares dos dois advogados indiciados, apreendidos durante a operação de 2018, a PF constatou que eles repassavam informações sigilosas, recebidas através dos dois escrivães da corporação.

Segundo os investigadores, os escrivães indicaram, em outras oportunidades, os advogados Ildeu e Arges para investigados. Em troca, recebiam parte dos honorários.

As investigações também apontam a relação de proximidade e cumplicidade entre Ildeu da Cunha Pereira e Márcio Marra. O advogado chegou a indicar o escrivão da PF para se tornar conselheiro do Cruzeiro, em 2017.

De acordo com a PF, a indicação foi “para que este [Márcio Marra] assumisse a cobiçada e disputada função, o que garante status e influência, além de vantagens frente a outros torcedores, como viajar de graça para assistir jogos fora de Belo Horizonte/MG, frequentar estádios gratuitamente na Tribuna de Honra, franco acesso ao clube, dentre outras”.

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